Um mundo que não aceita frustrações

Por vezes me pego incomodada com algumas atitudes que vejo por aí, e hoje vou falar de uma relacionada à educação (no sentido de formação de caráter) infantil. Na década do “politicamente correto” parece haver um excesso de proteção aos pequenos, no sentido de que os adultos evitam ao máximo que eles entrem em contato com sentimentos “ruins”.

Coloco ruins entre aspas porque questiono essa classificação. Só porque algo não é conveniente ao ego não quer dizer que não tenha sua função. E assim vejo por exemplo as escolas promovendo jogos entre turmas, em que no final todos ganham medalhas. Ora, será que não estamos exagerando na política de merecimento gratuito de nossos filhos?

Com sinceridade vamos responder à essa pergunta: na vida é possível que um indivíduo realize coisas sem esforço ou habilidade naquilo que faz? Me parece que via de regra não. Então porque estamos emulando um mundo irreal aos nossos pequenos? Um dia eles vão crescer e vão ter que em alguma medida se adaptar à um mundo que também via de regra não dá nada de graça pra ninguém. Se você quer que seu filho seja capaz de realizações e de autonomia ele precisa entender a política do dever.

Até porque quando ganhamos tudo dos outros uma parte nossa se satisfaz, mas outra sente-se incapaz. Proporcionar auto-estima para as crianças não se faz apenas por presentes, roupas bonitas e elogios. Até porque esse tipo de estima fica sempre dependente do olhar do outro. Se faz principalmente pela senso de capacidade de realizar e de amar e ser amado que um indivíduo pode ter.

Em algum grau, para que a criança possa crescer e transformar-se em um ser autônomo, há que se sacrificar em parte o instinto materno. O que quero dizer com instinto materno não é só aquele que brota nas mulheres que tiveram filhos, e sim em qualquer um de nós que deseja sempre providenciar tudo e proteger o outro do “sofrimento”. Seja esse outro filho, marido, esposa, amigos, alunos, pacientes, etc…

Proteger o outro é um ato de amor muito bonito, mas quando o privamos de seu crescimento perdemos o entendimento do nosso papel enquanto guias e orientadores para que essa vida possa florescer independente de nós.

 

O olhar que cura

A perda da fé talvez seja a maior tragédia para a vida humana. Não estou falando daquela fé no sentido estritamente religioso, e sim a fé em algo ou até mesmo em alguém, pois ela é a única coisa que nos mantém conectados e participantes na dinâmica da vida.

Quando ela foi perdida vê-se a vida por um prisma particularmente negativo, o que faz o sujeito a rejeitá-la assim mesmo como ela é, e fazer de tudo para não participar da realidade. Por medo e aversão, recuamos, nos isolamos e nos escondemos a fim de evitar o sofrimento. Mas é justamente esse recuo que o provoca, pois a única coisa capaz de curar nossas feridas chama-se eros (amor).

Quando eros aparece, nossa fé aumenta, pois já não existe tanto temor em enfrentar as situações que a vida oferece. A fé em nossa capacidade, a fé numa sabedoria superior, ou mesmo a fé em outra pessoa. Quando nos encontramos tão desprovidos desse sentimento o que nos resta é a sorte de que alguém nos olhe com amor e fé em nossa capacidade, para que essas dimensões voltem a brotar em nosso interior.

Como disse Madre Tereza, as pessoas boas merecem nosso amor, as más precisam dele. Não vou aprofundar aqui no mérito da questão entre “bom e mau”, mas vale a pena lembrar de que isso apenas diz respeito àquilo que é conveniente. Mas essa fala de Madre Tereza é fundamental para enxergarmos de que as pessoas mais isoladas, mais quebradas e por vezes mais arredias são justamente aquelas que mais precisam de um olhar de amor para curarem suas feridas.

Quem é o seu mestre?

Todos querem a liberdade, a dignidade, a honra e a felicidade. É um anseio bastante natural de auto-realização. Vai muito além do viver e do sobreviver, e parece-me ser o mandamento número 1 entre os humanos. Chamo de mandamento porque se eu chamasse de “direito” eu poderia ser mal entendida, porque um mandamento é um direito e um dever ao mesmo tempo.

Pois bem, a tal auto-realização só pode ser conquistada quando compreendo “quem sou eu” e tenho a coragem de viver de acordo com isso. Se ainda não sei responder à primeira questão eu posso sim ter muitas realizações, mas não posso chamá-las de auto-realização.

Com isso devo alertá-los que muitos realizam muitas coisas e nem por isso encontram a terra prometida da felicidade. Esse é o prêmio dos que seguem o próprio caminho. Por isso todo cuidado é pouco, pois errar o percurso é mais fácil do que encontrá-lo. Estamos acostumados à imitar caminhos alheios, a servir ideais e valores que pouco tem a ver com a nossa essência. Todos estes ideais coletivos de perfeição estética, financeira, profissional, sexual, amoroso e por aí vai tendem a nos desviar do nosso próprio.

Quem é o seu mestre? Ao que e a quem você serve? Se tiver sorte de encontrar um mestre de verdade este vai te ensinar a escutar seu mestre interior. Se tiver azar e encontrar um mestre que julga deter a única verdade aplicável seu caminho será desviado. Mas se a angústia fizer seu trabalho direitinho e abrir seus olhos, ainda dá tempo de olhar para si e encontrar seu próprio norte.

Muita atenção, olhos e ouvidos bem abertos, percebam quais são as coisas que endossam em você o direito e o dever de viver com honra e dignidade, este princípio universal que com certeza habita cada um de nós…

Saúde Mental – por Rubem Alves


“Faço uma lista das pessoas que, do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras foram alimento para a minha alma.

Nietzsche,

Fernando Pessoa,

Van Gogh,

Wittgenstein,

Cecília Meireles,

Maiakovski.

E assusto-me.

Nietzsche ficou louco.

Fernando Pessoa era dado à bebida.

Van Gogh matou-se.

Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia.

Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica.

Maiakoviski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental?

Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, sempre iguais, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham… Eram lúcidas demais para isso.
Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.
Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.
Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de loucos e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos.

Nós somos muito parecidos com computadores. O funcionamento dos computadores, como todo mundo sabe, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra se denomina software,
“equipamento macio”.

O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.
O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados.
Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso.

O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória. Do mesmo jeito como
nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, sendo que o programa mais importante é a linguagem. Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também.

Quando o nosso hardware fica louco há de se chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam. Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos; somente símbolos podem entrar dentro dele. Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Eles podem vir de poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus,
amigos e até mesmo psicanalistas…

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que o seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco?

Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som; imagine que o CD e os acessórios, o hardware, tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover.

Imagine mais; imagine que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio:

A música que saia de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou…

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, a “saúde mental” até o fim dos seus dias:

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware.
Cuidado com a música… Brahms, Mahler, Wagner, Bach são especialmente contra-indicados.
Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar. Tranquilize-se; há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento.
Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito.

Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais. E, aos Domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.
Seguindo essa receita você terá uma vida tranquila, embora banal. Mas como você cultivou a insensibilidade, não perceberá o quão banal ela é. E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, então, realizar os seus sonhos.

Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram…”

Rubem Alves

A mentirinha nossa de cada dia

A questão entre a fidelidade de um casal vai muito além das relações extraconjugais. Me parece que este é justamente um dos maiores problemas dos relacionamentos amorosos. Pequenos atos de omissão e de mentira para salvar a própria pele (ou poupar a pele do parceiro) vão criando uma grande distância afetiva entre os pares. Nunca vi maior agente de separação do que os segredos! A curto prazo eles podem poupar a relação. A longo prazo, dificilmente isso se aplica.

Os motivos para tantos pontos cegos são muitos, mas normalmente envolve pelo menos um desses dois fatores: uma falta contra o relacionamento ou um companheiro que não respeita a individualidade do outro.

Um dos tipos que mente tende à ser cercado de medos a respeito das consequências de seus desejos. Então ele escolhe o desejo, mas não tem coragem de assumi-lo (ou melhor dizendo, assumir-se). Tão bom seria se todos tivessem a coragem de ser em essência e em aparência a mesma coisa. Talvez a questão do distanciamento que a  mentira provoca nos relacionamentos seja de pouca importância, sendo muitíssimo mais grave o distanciamento que ela causa em nós próprios.

A partir do momento que meu parceiro só pode entrar em determinadas áreas de minha vida aparece um limite. Um muro, que deixa bem claro: você só pode entrar até aqui! E muitos fazem isso não porque possuem um grande segredo para esconder, mas sim porque temem que o parceiro invada seu território e se torne o novo ditador, dizendo quem pode e quem não pode entrar nessa cidade. Enfim, medo de que o outro se transforme no chefe dos sistemas legislativo, executivo e judiciário de seu próprio território.  E que bom seria se ninguém confundisse pessoas com propriedades. Nesse caso o medo é o de fundir-se (e confundir-se), de perda da independência.

Algumas pessoas tem tanto medo disso que quando começam a gostar de alguém logo querem correr para bem longe! Mas aqueles que já se conhecem muito bem não se confundem mais, mesmo se entregando ao amor!