O lado não falado da maternidade

May 30, 2011 by

Existe um lado da maternidade que fica sempre em evidência: a realização em ser mãe, o complemento na vida do casal, a continuação da espécie, o amor incondicional que as mães tem por seus filhos, e tudo mais que seja positivo.

Um quarto de bebê é a coisa mais linda, assim como as roupinhas, os talquinhos, e os próprios bebês é claro!

As grávidas e as mães que amamentam formam uma figura romântica em nosso imaginário. A mídia – especialmente no dia das mães – nos faz crer que não existe sensação maior do que a de ter um filho.

E isso tudo é real. Essas coisas existem. Mas percebo que existe um lado que nunca pode ser falado, como se fosse um tabu, dos sofrimentos em se ter um filho.

Essas histórias nós só ouvimos na segurança do consultório. Normalmente ela começa com uma grávida, sendo muito bem tratada, muito paparicada – o centro da atenção familiar. Essa história passa pelas ecografias vendo seu bebê se desenvolver. E uma possível sensação de ainda não “ter caído a ficha” sobre a iminente maternidade.

Passa também por toda uma preparação material para receber essa criança. Todas aquelas coisas lindas e delicadas que permeiam o universo infantil.

E essa história chega até o dia do nascimento. Nesse instante a mulher sente na carne as dores de dar a luz, o vazio na barriga, uma possível sensação de impotência/incompetência por não conseguir lidar com algumas situações de imediato (choro do bebê, cólicas, dificuldade na amamentação, etc.).

E toda aquela atenção que era dirigida à elas até poucas horas atrás se desvia para o filho.

Uma paciente minha me relatou a volta da maternidade da seguinte forma: “Voltei com meu marido, meu bebê e minha sogra. Chegando em casa meu marido foi ajudar minha sogra a tirar o bebê do carro, e os dois me esqueceram lá. Eu também precisava de ajuda, estava operada. Demorou até que eles percebessem minha ausência.”

A mãe passa a ser vista e tratada como o suporte do bebê. E qualquer coisa que saia (ainda que de forma previsível) da perfeição é entendida como inoperabilidade materna.

E aí essas mães sofrem com a pressão (explícita e velada, interna e externa) especialmente daqueles que até pouco tempo atrás a paparicavam. São as avós, as tias, as primas, as irmãs, as amigas…. enfim, um bando de gente que diz para essa nova mãe fazer assim ou fazer assado. Sendo que talvez ela só precisasse de tempo, espaço e confiança para criar um ritmo com seu bebê.

É como se essas mães perdessem a identidade (até porque deixam de lado muitos papéis nessa fase da vida) e tivessem que assumir outra que ainda não conhecem. É como se fosse passada uma borracha nessas mulheres. E que sua existência passasse a ter significado através da vida de outro.

Meu conselho é que não se esqueçam dessas mães. Especialmente vocês, maridos. Estejam ali do lado delas. E fazendo isso, podem ter certeza que estarão ajudando – e muito – seus filhos. E que pudéssemos falar mais abertamente sobre isso, saber que sentimentos ambivalentes podem surgir, porque a coisa é tão velada, fica tão na sombra, que a maioria das mulheres pensam ser pessoas terríveis por não estarem vivendo o sonho da forma como é pintado.

Posts relacionados

Compartilhe

Comentários

  1. Muito prudente o seu texto, Ana.
    É de grande importância que as mães sejam lembradas. Até mesmo não como mães que vieram a ser. Mas como mulheres, que sempre foram.

    Beijo.

    http://significantess.blogspot.com

  2. Muito real seu texto, lembro até hj do momento em q a enfermeira entrou no quarto com meu filho para mamar pela primeira vez, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo e eu não tinha noção de como fazer e o quarto estava cheio de visitas. Pedi para q tds saissem, pois era um momento meu e dele e mesmo assim foi difícil até um aprender com o outro.

  3. Nicole

    Ana… Falou e disse… Depois muitos acham que é coisa da cabeça das mães a depressão pós parto… poxa, toda a atenção, cuidado, mimos e carinhos… e de repende… você é a mamadeira ambulante, a “vaca leiteira”, que serve pra alimentar, trocar fraldas e acalmar quando o bebe chora… de fato. muitas vezes a vontade é de sumir… poucos realmente ajudam… a maior parte dá palpites sem saber… cada criança é única e especial… tem seus jeitinhos, posições preferidas, que a gente demora a descobrir….
    Fica com Deus… Beijos!!!!! e Parabéns pelo post!!!!

  4. Ana Luisa Testa

    É, tenho pensado nesse assunto ultimamente… acho que existem mtas coisas que ainda poderiam ser ditas, inclusive no campo da sexualidade, insegurança com o próprio corpo, ciúmes, etc.
    Lembro-me de uma situação em que a mãe se entristecia na hora em que o marido estava para chegar, pq sabia que o primeiro beijo seria para o bebê, e depois para ela. Só que esse tipo de sentimento ninguém pode falar.

  5. Alessandra

    Nossa, muito legal mesmo!!!! esse assunto tem muita coisa pra falar. Mas realmente, nem todo mundo quer ouvir.

  6. Anna

    Meu marido segurava nossa filha de forma tão egoísta, que dava a impressão a mim e a tds que ela era só exclusivamente dele. Chegou a dizer na minha cara que eu era uma mera reprodutora. Meu amor por ele morreu ali. Passei por uma depressão pó-parto violenta ( não sei se por isso ou por isso e outras mais), muitas coisas começaram a acontecer, aconteceram e, hj, pela insistência só dele, vivemos de colar restos…

  7. Muito interessante esse texto, quando minhas filhas (gêmeas) nasceram, foi exatamente isso que aconteceu. Fui esquecida no carro..lembro de um dia que falei pra minha tia não receber nenhuma visita, pois não estava me sentindo bem pra receber visitas, ela olhou pra mim e disse, mas ninguém vem pra te ver e sim tuas filhas. Aquilo foi tão forte pra mim que depois disso passei a tratar mal todas as visitas.

  8. Gabriela

    Adorei o texto… É exatamente o que estou vivendo, minha primeira filha, sou mãe solteira.. e enfermeira.. É insuportável o número de palpites e a dificuldade de exteriorizar todos os pânicos, aflições qd vc tenta falar parece que vc é um monstro por ser sincera q tem aflições e em um pouquíssimas pessoas estão disposta a te ouvir …

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title="" rel=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Receba as novidades do Terapia em dia por e-mail