Reich & Jung

Sep 9, 2009 by

REICH E JUNG: HOMENS ALÉM DE SEU TEMPO

Ana Luísa Testa

RESUMO

Este artigo aborda questões relativas à dois grandes autores da psicologia moderna: Reich e Jung e traça paralelos não só em suas teorias, assim como em suas percepções sobre vida, ciência e cultura. Discute e crítica posições empregadas pelo paradigma mecanicista de ciência e aponta como Reich e Jung – homens com uma visão além de seu tempo – conseguiram transpor os valores científicos de sua época e adotaram uma visão mais integral de homem em suas práticas e teorias, reconhecendo nos outros em si o que há de irracional e obscuro, aquilo que aprendemos a negar e não conseguimos enxergar – a Sombra e nossos corpos.

Palavras-chave: Jung, Psicologia Corporal, Reich,

ABSTRACT

This article discusses issues about two of the main authors of psychology: Reich and Jung, and draw some parallels into their theories, their perceptions about life, science and culture. This article also criticizes the mechanicist model of science and shows how Reich and Jung were able to skip the scientific paradigm of their time and concept a holistc vision about life and human nature in their practices and theories, recognizing in human beings what’s irrational and obscure, what we learn to deny and what we are not able to see – the Shadow and our bodies.

Keywords: Body Psychology, Jung, Reich.

Oscilei em minha decisão sobre comparar partes da teoria de Reich e Jung muitas vezes. Seriam as semelhanças fortes o suficiente para justificar um artigo? E o que fazer quanto às diferenças? Essas diferenças teóricas e técnicas poderiam se complementar de alguma forma? Quem apresenta a melhor proposta de trabalho: Reich ou Jung? Esta última pergunta foi a mais simples de se responder, pois em psicologia não existe certo e errado; as escolhas teóricas são baseadas na personalidade, visão de mundo, história de vida e grau de identificação de cada pessoa com as mais diversas teorias. Muitas correntes teóricas são eficientes, desde que bem aplicadas e compreendidas. É como Sannino (1992) expõe, fazendo referência aos chineses – A palavra certa na boca do homem errado produz resultados errados. A palavra errada na boca do homem certo produz resultados certos. Em psicologia, a eficiência pessoal e técnica do terapeuta são elementos de maior importância.

Seguindo o desenvolvimento de minhas perguntas, quando penso nas diferenças entre os dois, vejo que elas não se restringem apenas à teoria – já que Reich e Jung foram homens muito diferentes. O primeiro era mais extrovertido, concreto, bastante apegado à seriedade, sem raízes – Reich era um cidadão do mundo – e com pouco senso de humor. O segundo, um tipo introvertido, predominantemente pensador, mais recluso, mais humilde em suas convicções e profundamente enraizado na Suíça. (CONGER, 1993). De fato as diferenças são enormes, mas e quanto às semelhanças?

Ambos foram filhos da psicanálise e amigos próximos de Freud. Reich foi o membro mais novo a ser aceito na Sociedade Psicanalítica, e Freud era como um pai para ele. O livro “Psicopatologia e Sociologia da Vida Sexual”, traduzido no Brasil como “A Função do Orgasmo” foi um presente de Reich para Freud, em 1926, por conta de seu septuagésimo aniversário, mas Freud o rejeitou, e por fim acabaram rompendo por divergências não só teóricas, mas também pessoais. Com Jung a situação não foi muito diferente. Freud acreditava que Jung seria seu sucessor na Sociedade Psicanalítica, mas as divergências teóricas foram profundas, já que Jung considerava a redução nas interpretações sexuais algo superficial, e buscava em sua teoria os símbolos ocultos do inconsciente, e por fim acabaram rompendo no ano de 1913. (CONGER, 1993)

Após a ruptura com Freud, Reich e Jung começaram a desenvolver suas próprias teorias e métodos de trabalho psicoterapêutico. Dedicaram-se à psicologia profunda e aos fundamentos da vida de forma brilhante – Reich estudando e trabalhando com a energia e o corpo e Jung com imagens e símbolos do inconsciente.

Outra semelhança é que para os dois autores, corpo e mente são aspectos diferentes de um mesmo organismo. (CONGER, 1993). Hoje, através de um novo paradigma de ciência que vem abrindo caminhos pela física quântica, sabemos que essa visão de homem não poderia ser mais apropriada. Energia e matéria são aspectos de uma mesma unidade. A natureza do elétron se comporta ora como onda, ora como partícula. Muitos físicos, atualmente, aceitam que a matéria esteja impregnada de psiquismo, (SILVEIRA, 2000) e as neurociências apontam cada vez mais as bases materiais de nosso psiquismo, o que não significa a emergência de um reducionismo das ciências psicológicas às neurofisiológicas, mas sim um complemento, uma visão mais complexa e interdisciplinar.

Conforme diz Silveira (2000, p. 164): “Se o psicólogo, nas suas investigações através das camadas mais profundas da psique, encontra a matéria, por sua vez o físico, nas suas pesquisas mais finas sobre a matéria, encontra a psique”. Neste sentido, matéria e psique podem ser consideradas um mesmo fenômeno, o primeiro observado pelo exterior, e o segundo do interior. (VON FRANZ apud SILVEIRA, 2000)

Seguindo esta linha de raciocínio, acredito que Reich e Jung conseguiram se distanciar do paradigma científico predominante da época – o mecanicista, muito bem sintetizado pela máxima de René Descartes – “Penso, logo existo” – que restringe o homem à um ser racional, previsível e fundamentalmente mecânico. (CAPRA, 1995) O homem se identificou com sua parte racional, e neste modelo de ciência, não teve instrumentos para olhar e compreender o todo. É por esta razão que intitulei Reich e Jung como homens além de seu tempo, mostrando alguns prejuízos que uma cisão entre racionalidade e irracionalidade no homem podem acarretar.

Os dois autores conseguiram esquivar-se do padrão mecanicista de ciência cada um à seu modo: Reich de uma forma que ele julgava concreta (científica) e palpável, e Jung por suas observações e classificações sistemáticas de todo material que lhe aparecia, seja por um processo de auto análise, na clínica ou pelo estudo dos mitos. Ao criticar o modelo vigente, em “O Éter, Deus e o Diabo” (2003) Reich questiona por qual razão a ciência não abraçou o estudo do processo vital, e argumentou que todo paradigma científico adotado é sempre o reflexo dos homens de sua época. Podemos dizer então que o homem mecanicista, materialista, que se enxerga tal como uma máquina é incapaz de incluir em sua pesquisa aspectos que ele próprio não enxerga – sua humanidade total.

O físico mecanicista típico pensa de acordo com os princípios da construção da máquina, a quem serve em primeiro lugar. Uma máquina deve ser perfeita. Portanto, o pensamento e a ação do físico devem ser perfeitos. O perfeccionismo é uma característica essencial do pensamento mecanicista. Não permite erros. Incertezas e situações em fluxo são indesejáveis. (REICH, 2003, pág. 89)

O cientista moderno trabalha com modelos artificiais, altamente controlados em laboratório, já que erros e desvios são considerados inoportunos. E desta forma ele se opõe à realidade, pois a natureza opera de forma imprevisível e altamente complexa. Além disso, o cientista omite em seus resultados possíveis erros, lacunas e contradições e expõe apenas o resultado final, já lapidado. Esta é mais uma atitude que ilustra como a necessidade de perfeição do cientista pode atrapalhar a compreensão dos fenômenos. (REICH, 2003)

Jung, assim como Reich, também faz a sua critica à ciência, ao dizer que ela não consegue trabalhar com o que o homem é – sua essência – e que a vida humana pode ser mais bem expressa através dos mitos. O mito expressa a vida com mais exatidão do que a ciência, que falha por trabalhar com noções médias e demasiadamente genéricas para dar conta da riqueza e complexidade de uma vida individual. (JUNG, 1984)

Com isto, eles não queriam dizer que a ciência deva ser descartada, mas sim complementada, e que seus objetos de estudo possam ser visto a partir de uma visão mais complexa, menos fragmentada e menos desconectada.

Como Reich afirmou, o paradigma empregado em determinada época é o reflexo dos homens que o adotam e o validam, então poderíamos dizer que estes homens estão tão fragmentados e desconectados quanto seu modelo de produção de conhecimento? Reich e Jung acreditam que sim, e que este homem é resultado de uma cultura que considera os aspectos irracionais do ser humano como algo inferior. Para eles, esta cisão é o retrato do homem não saudável, e a saúde deve ser reconquistada a partir da união de opostos. (CONGER, 1993) “Natureza e cultura, instinto e moralidade, sexualidade e realização tornaram-se incompatíveis, como resultado da cisão na estrutura humana.” (REICH, 1995, p. 17)

A unidade desses fenômenos será utópica enquanto o homem se negar a ver e levar em conta o seu corpo e toda a irracionalidade à ele pertinente. Keleman (1999), afirma que tal cisão nos faz perder contato com nossa imagem interior, nosso self. O contato é perdido porque aprendemos em nosso meio externo como devemos ser e como devemos nos comportar, e tentamos corporificar essas imagens de fora para dentro. A fim de sermos aceitos, nos afastamos de nossa capacidade de expansão, de contato e de autenticidade em relação ao nosso ser. Vivemos um personagem que acreditamos ser a representação mais fidedigna de nós mesmos, sem nos darmos conta de que forma ele nos consome e reprime nossos sentimentos mais espontâneos, nossa fluidez natural, nos deixando temerosos e destrutivos – indivíduos encouraçados.

Para Reich, a couraça é desenvolvida pela imposição social de controle dos impulsos e emoções. Elas são corporificadas para que o indivíduo se adapte às exigências sociais através da manipulação de seu sistema vegetativo, como por exemplo, prender a respiração (bloqueio do diafragma) a fim de suprimir fortes emoções. As couraças são identificáveis no corpo através de contrações crônicas em grupos musculares funcionalmente associados.  Estamos inconscientes de nossas couraças, de nossa rigidez somática, e do que elas representam. Nossas couraças são as estruturas capazes de manter a cisão no ser humano. (REICH, 2004)

Se para Reich cultura e sociedade são responsáveis pela cisão e pela formação das couraças, para Jung elas são responsáveis pela cisão e pela constituição da sombra.

Da mesma forma que estamos inconscientes de nossas couraças, também estamos inconscientes de nossa sombra. A sombra, para Jung, abrange os lados opostos inaceitáveis pela sociedade – e por fim por nós mesmos – que não conseguimos acoplar ao nosso Ego. É o nosso lado obscuro. (VON FRANZ, apud CONGER, 1993)

Poderíamos então dizer que o conceito de corpo encouraçado de Reich assemelha-se ao conceito de sombra de Jung, na medida em que ambos operam na manutenção da cisão humana entre o par de opostos racional x irracional. Tanto o corpo quanto a sombra contém a história de como o surgimento espontâneo da energia vital (e de nosso self) é rejeitado.

A vitória de uma vida super racionalizada se dá à custa de uma vitalidade mais primitiva e natural. Para quem pode ler o corpo, ele guarda o arquivo de nosso lado rejeitado, revelando o que não ousamos falar, expressando nossos temores passados e presentes. O corpo como sombra é predominantemente, o corpo como caráter, o corpo como energia contida que não é reconhecida, não é constatada, é ignorada e indisponível. (Conger, 1993. pág. 103)

Através desses conceitos descritos e relacionados – couraça e sombra – vemos que Reich e Jung preocuparam-se com a questão da cisão humana e a forma como ela nos afeta e prejudica. À medida que valorizamos a razão e abandonamos parte de nossa humanidade, os aspectos não-racionais permanecerão na sombra, num estado de inconsciência e indiferenciação, e não poderão ser usados na busca do prazer, do contato íntimo e do amor. Acredito que no trabalho psicoterapêutico o principal objetivo é auxiliar nosso clientes a unirem seus opostos, para que consigam amar não só superficialmente, mas também afetivamente, trabalhar não só com a mente, mas também com o corpo e conhecer não só aquilo que é racional, e sim o todo – e, parafraseando Reich, desta forma ajudá-los à governarem suas vidas.

Relacionar Reich e Jung não é tarefa fácil quando pensamos em encontrar muitos paralelos em suas teorias, mas bastante enriquecedora quando procuramos entender a grandeza de pensamento desses dois autores e cruzar conceitos semelhantes que exprimem a realidade humana. Acredito que estudiosos e seguidores de ambas as teorias podem se beneficiar ao beber de outras fontes teóricas. Este texto não esgota de forma alguma as possíveis relações entre os dois, e argumenta basicamente o reconhecimento de que Reich e Jung identificaram um certo círculo vicioso, de um homem desconectado que produz uma ciência fragmentada, e de uma ciência fragmentada que alimenta a desconexão de um homem racionalizado com a sua irracionalidade.

REFERÊNCIAS:

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente.25 ª ed. São Paulo: Cultrix, 2005.

CONGER, J. P. Jung e Reich: O corpo como sombra. São Paulo: Summus, 1993.

JUNG, C.G. Memórias Sonhos Reflexões. 6 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1984.

KELEMAN, S. Mito e Corpo: Uma conversa com Joseph Campbell. São Paulo: Summus, 1999.

REICH, W. Análise do Caráter. 3 ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

REICH W. A função do Orgasmo.  19 ª ed. São Paulo: Brasiliense. 1995.

REICH W. O Éter, Deus e o Diabo. São Paulo: Martins Fontes. 2003.

SANNINO, A. M. Métodos do Trabalho Corporal na Psicoterapia Jungiana: Teoria e Prática. São Paulo: Editora Moraes, 1992.

SILVEIRA, N. Jung: Vida e Obra. 17 ª ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra. 2000.

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Comentários

  1. Sim sim, está públicado na revista do Centro Reichiano, que é indexada!=)

  2. Tammy

    Amei de mais este site, pois ele nos fornece uma serie de assunto interessantes que instigam minha curiosidade!

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