Sobre trincheiras, amor e fé.

Jun 7, 2011 by

Durante essa noite recebi de presente o post de hoje. Sonhei com ele para ser mais exata, e me foi dito para escrevê-lo. No sonho, o título era diferente: “Sobre feridas, pontes e muros”, e a foto era de uma fortaleza espinhosa, com uma ponte quebrada. Talvez seja porque tenha falado sobre essas coisas ontem.

Procurei, procurei e procurei uma imagem assim no google, e enquanto fazia minha busca achei essa outra, uma trincheira. E entendi que essa imagem representa muito bem o assunto de hoje.

As vezes encontro pessoas que foram tão machucadas ou traídas, que já não podem mais confiar. Geralmente elas reclamam de solidão. Mas é difícil nos aproximarmos, justamente pelo estado em que se encontram suas pontes.

Quem normalmente nos fornece modelos de vínculo (pontes) são nossos pais. Quando não fazem de maneira adequada – com amor e aceitação incondicional – nossas pontes ficam frágeis, e chegam até mesmo a quebrar.

Muros altos podem ser levantados, que pretendem isolar o eu (ego) do resto das coisas… como se houvessem criado uma proteção emocional para que não sejam mais feridas. E esse ego pode ficar em posição de combate, escondido em uma trincheira, com uma arma na mão. Pronto para se defender e para atacar. Sentindo que pode confiar apenas em si mesmo na luta pela sobrevivência.

Essa confiança apenas em si não pode ser confundida com auto-estima. Essa “confiança” é mais um recurso compensatório em relação à hostilidade que foi enfrentada (e a sensação de ser indefeso) do que qualquer outra coisa. Pode se apresentar como arrogância, intolerância, teimosia e prepotência.

Essa luta é vivenciada tanto no meio intrapsíquico como no extrapsiquico. Lutamos com nosso inconsciente, lutamos com nossos pais, nossos amigos, nossos empregadores, nossa sociedade, nossos parceiros, nossos terapeutas, nossos anjos e nossos demônios, e tudo o que mais existir entre o céu e a terra. E isso cansa… isso esgota…

Nada esgota mais os recursos de um país do que a guerra. E assim também acontece com nossos recursos psíquicos. E a única forma de se acabar uma guerra é através do diálogo entre as partes. É preciso ir além das trincheiras, é preciso desistir da luta, é preciso render-se. Sei que o medo pode adiar e até mesmo impedir nossa rendição. Mas talvez seus inimigos sejam seus amigos. Talvez exista uma sabedoria em nossa psique que nos conduza (ainda que da maneira mais sofrida) à um novo nível de funcionamento. Talvez a guerra já tenha acabado, e esteja no tempo de sair desse bunker subterrâneo. Dê o crédito, confie.

Ter pontes nada mais é do que ter fé, confiar. Ter pontes é religar o ego com o self. E daí podemos entender porque Jung coloca que a função máxima da psique é religiosa. (Religião: do latim “religio” que significa “prestar culto a uma divindade”, “ligar novamente”, ou simplesmente “religar”).

Gostaria de fazer apenas uma observação: quando falo de religião aqui, não estou falando de nenhum movimento doutrinário. Estou falando apenas de fé e vínculo. Fazer parte de uma religião não significa estar conectado. Essa conexão de que falo é interna, é o eixo ego – self (ligação entre o centro da consciência com o centro do inconsciente).

E quando você se vincula, não sofrerá mais com a solidão, ainda que permaneça horas e horas sozinho…


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