A Integração Psíquica

Sep 9, 2009 by

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A BUSCA DO SELF: A VISÃO DA PSICOLOGIA ANALÍTICA E DA PSICOLOGIA CORPORAL A RESPEITO DA INTEGRAÇÃO PSÍQUICA

Ana Luísa Testa

A maioria das pessoas em nossa cultura atual geralmente não tem a coragem de ser si mesmas. Utilizam-se de papéis socialmente desejáveis simplesmente para serem aceitas e amadas. A ironia nisso é que elas próprias não se aceitam e negam o seu verdadeiro self. A sensação de serem amadas não se completa pois, em seu íntimo, sabem que gostam de seus personagens e o medo da perda do amor faz com que continuem a viver esse papel, temendo arriscar a perda do amor e da aceitação de seu meio.

Amor não pode ser ganho ou recebido em troca de algo, pois é uma expressão espontânea de afeição e de calor humano, em resposta ao ser de outra pessoa. É “eu te amo”, não “eu amo o que você está fazendo”. Amor implica uma aceitação que foi negada à criança. Depois de desistirmos de nossa verdadeira natureza para desempenharmos um papel, estamos destinados a sermos rejeitados porque já rejeitamos a nós mesmos (LOWEN, 1986, p. 74).

Essa dinâmica ocorre desde o momento que uma nova vida humana chega a este mundo. Pais esperam que seus filhos ajam de determinadas formas e a criança não aguenta ficar sem a sensação de aprovação dos pais (LOWEN, 1986). Quando ela tem atitudes opostas entre si geralmente acaba escolhendo uma delas e a consolida, sendo que a que foi rejeitada faria parte de uma segunda natureza da criança, um background. Essas características rejeitadas não deixam de existir, apenas ficam em segundo plano, e constituem o que Jung denominou “sombra” (JUNG, 2002).

As possibilidades de desenvolvimento vivenciadas pela maioria das crianças são, no fundo, alienações do self, modos de despojá-lo de sua realidade, em benefício de um papel exterior ou de um significado imaginário, geralmente esperado pelo coletivo. A renúncia do self em favor do coletivo corresponde a um ideal social; passa até mesmo por dever social e virtude, embora possa significar às vezes um abuso egoísta, especialmente por parte dos pais – os primeiros representantes dessa coletividade na vida de uma criança.

As atitudes opostas àquelas que a sociedade espera são então relegadas ao inconsciente e permanecem infantilizadas. O ego é que faz essa seleção e ele só dá conta de manter os opostos na consciência à medida que ele está forte e saudável. Se por alguma razão o ego perde sua vitalidade e suas possibilidades criativas – e é o que frequentemente ocorre nos processos disciplinares – os opostos se separam e surgem dificuldades de todos os tipos. Nessas circunstancias o ego luta para se identificar com um lado ou com o outro. Não consegue manter um equilíbrio entre os dois, mas ainda assim está suscetível a insinuações dos dois lados. De um lado estão as características fortalecidas, bem desenvolvidas e conscientes e do outro lado as características infantilizadas, subdesenvolvidas e inconscientes. Assim se dá a dinâmica neurótica, que é o resultado de um ego que não está em harmonia com os com os níveis mais profundos do eu integralizado (JUNG, 2002).

Lowen (1986) questiona por que simplesmente não desistimos do papel social, de nossa persona e nos mostramos inteiramente como somos. A resposta é que não estamos conscientes de que nossas atitudes, nossos comportamentos e sentimentos não são genuínos. Estamos tão identificados com os nossos personagens que não somos capazes de nos diferenciar ou vislumbrar outras possibilidades de existir.

Quando alguém se encontra em sofrimento por essa desconexão entre self e persona dificilmente o primeiro caminho a ser tomado será o de reconhecer suas características indesejáveis, aceitá-las e trabalhá-las para existir inteiramente. A primeira atitude tomada em geral é a de buscar um desempenho egóico ainda melhor, mais eficaz, perfeito. A vontade é um ótimo instrumento para se modificar a persona, mas ela é inútil para mudar estados interiores. Ninguém se conecta através da pura vontade de se superar. Isso acaba por se tornar um ciclo vicioso, pois a busca pela superação, orientada pela expectativa social, distancia ainda mais a pessoa de sua essência.

Ao negar os sentimentos que partem do corpo e, em seu lugar, assumir um papel a ser desempenhado, tornamo-nos adaptáveis ao que de nós se espera. Um ego distorcido, que cedeu a batalha às pressões do mundo externo domina corpo e mente. Quando esse mundo externo dita que devemos ser racionais, bem sucedidos, evidentemente serão essas as características que nosso personagem irá assumir. O sentimento é considerado insano, perigoso, na exata medida em que poderia nos aproximar de nossa própria humanidade e, por meio dela, da humanidade das pessoas que estão ao nosso redor arriscando perder o poder (VOLPI; VOLPI, 2003, p. 85).

Na busca pela perfeição desprezamos os aspectos indesejáveis e incoerentes com aquelas atitudes que queremos que os outros vejam em nós. Esses aspectos não são unicamente coisas negativas. Alguns indivíduos possuem uma sombra formada por elementos positivos – as qualidades de sua personalidade foram reprimidas – e se identificam fortemente com aspectos negativos, desempenhando papéis desfavoráveis e sendo incapazes de reconhecer suas qualidades. Esses papéis, sendo tanto positivos quanto negativos, são caracterizados por sua unilateralidade, que é a responsável por diversas dificuldades na vida da pessoa, por limitar seus recursos e possibilidades de reagir à vida (JUNG, 2000).

O primeiro passo para a reconquista do self é reconhecer a sombra e aceitá-la. Essa não é uma tarefa propriamente fácil, mas de resultados necessários à vida integralizada e de possibilidades resgatadas. É somar à consciência aqueles elementos que o ego não pudera suportar anteriormente e desenvolvê-los. A sombra é um problema de que desafia a personalidade do eu como um todo, pois para conseguir aceitá-la o indivíduo terá de despender uma grande quantidade de energia. Essa aceitação das inferioridades é a base para qualquer tipo de autoconhecimento e não acontece sem qualquer resistência por parte do ego (JUNG, 2000). O papel do terapeuta então é o de um facilitador, que possa dar suporte e ajudar na busca do autoconhecimento e da conversão do ser.

Essa conversão do próprio ser significa uma ampliação, elevação e enriquecimento da personalidade, uma vez que os valores iniciais sejam mantidos ao lado da conversão, caso não sejam meras ilusões. Se não forem mantidos o indivíduo sucumbirá à unilateralidade oposta, caindo da aptidão na inaptidão, da adaptabilidade na inadaptabilidade, da sensatez na insensatez, e mesmo da racionalidade na loucura. O caminho não é isento de perigo. Tudo o que é bom é difícil, e o desenvolvimento da personalidade é uma das tarefas mais árduas. Trata-se de dizer sim a si mesmo, de se tomar como as mais sérias das tarefas, tornando-se consciente daquilo que se faz e especialmente não fechando os olhos à própria dubiedade, tarefa que de fato faz tremer (JUNG, 1999, p. 27).

Com trabalho árduo, boa parte de nossa sombra pode ser assimilada e integrada à nossa personalidade. No entanto, certos traços opõem obstinada resistência. Essas resistências ligam-se a projeções e isolam a pessoa do mundo exterior, já que as relações reais serão substituídas por relações ilusórias. Jung (2000) fala que essas projeções levam a um estado de autoerotismo e uma inflação do ego – algo como um narcisismo – em que se sonha com um mundo cuja realidade é inatingível e o que se consegue é uma sensação de incompletude.

Quando uma pessoa é identificada com uma imagem, ela vê a outra como uma imagem, que em muitos casos, representa um aspecto rejeitado do self. O narcisismo divide a realidade de um indivíduo em aspectos aceitos e rejeitados, sendo estes últimos projetados, portanto, em outros. O ataque contra esses outros provém, em parte, do desejo de destruir esse aspecto rejeitado (LOWEN, 2002, p. 56).

Ao se retirar as projeções dos objetos do mundo exterior o que ocorre é um aumento de conhecimento sobre si e a integração de conteúdos do inconsciente. É uma expansão das fronteiras da consciência e também do significado do eu. Quanto mais significativos forem os conteúdos assimilados, mais o eu se aproximará do self (JUNG, 2000).

O terapeuta deve então trabalhar na retirada das projeções para devolver a realidade, as possibilidades e a integração para seus pacientes viverem plenamente e em conformidade com seus verdadeiros selves.

REFERÊNCIAS:

JUNG, C. O segredo da flor de ouro. 1999

JUNG, C. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 6 ed. Editora Vozes: Petrópolis, 2000.

JUNG, C. O homem e seus símbolos. 20 ed. Editora Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2002.

LOWEN, A. Medo da Vida: caminhos da realização pessoal pela vitória sobre o medo. 9 ed. Summus: São Paulo, 1986.

LOWEN, A. Narcisismo: negação do verdadeiro self. 5a ed. São Paulo: Cultrix, 2002.

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