Ego alienado

Nov 13, 2011 by

No post anterior falei um pouco sobre a questão da inflação do ego – ou seja – do estado psíquico em que o ego encontra-se identificado com a divindade arquétipo do Si-mesmo), e portanto muio além da sua própria medida.

O post de hoje trata do problema oposto. O ego é o “eu” da consciência, e a palavra alienado nos remete ao “estranho”, no sentido de não pertencimento.

A alienação é a única dinâmica psicológica capaz de nos tirar do estado de inflação. Se lá posso usar a imagem mítica do “estar no paraíso e ser especial”, aqui cabe a imagem da queda, do castigo, da condenação, da ferida, do isolamento, da quebra, e de mais tantas outras. Se vocês voltarem no post do dia 25/10/11 – Será a consciência uma dádiva ou um sofrimento? verão que as imagens de criação de consciência são as mesmas da alienação do ego. E isso não é uma coincidência. A alienação é o primeiro passo para que o indivíduo abandone o mundo da infância, das ilusões e do inconsciente em busca de si próprio. Enquanto estamos identificados com algo é porque ainda não temos identidade própria.

Nesse estágio de desidentificação é como se o ego perdesse seu elo com o resto do mundo (tanto interno quanto externo), e o que fica é o vazio. O ego sente-se destituído de valor. O que antes estava além da medida, agora encontra-se aquém da mesma. É  um estado de constrição, vivenciado como angústia.

Nesse estágio as pessoas tendem a ter dificuldades de encontrar algum sentido na vida, e acabam por viver um dia de cada vez, como uma perpétua condenação à uma vida de obrigações. Não existe prazer nas relações.

Psicologicamente, entendemos que houve um dano (ou até mesmo uma quebra) ao eixo que liga o ego ao Si-mesmo. A qualidade desse eixo é formada pela qualidade que temos na relação com nossos pais, especialmente no começo da infância, já que em princípio o Si-mesmo é projetado na figura dos pais. Por isso é tão importante que os pais sejam capazes de se relacionar com seus filhos, de conseguir proporcionar uma educação em que o eu da criança jamais seja rejeitado. Por isso devemos educar apontando que o comportamento foi errado, e não a própria criança.

Indivíduos que sentem-se bem aceitos pelos pais (lembrando novamente que a ênfase fica no começo da vida) tendem a experimentar a figura do Si-mesmo (e até mesmo a figura da divindade) como algo acolhedor, protetor e digno de confiança. É como se o “eu” pudesse confiar mais, e mesmo nos momentos difíceis não experimentar o pleno desamparo.

Algumas pessoas são tão danificadas nessas relações parentais que sua capacidade de criar vínculos desaparece completamente. Eixo, vínculo e relacionamento são a mesma coisa. E o ego precisa se vincular tanto fora quanto dentro. Senão é uma vida desértica.

Quebra de relacionamentos amorosos, perda de um papel (emprego por exemplo), ou a perda de um ente querido pela morte podem provocar grandes estados de alienação, e acredito que seja nesses momentos que as pessoas vão procurar ajuda psicológica.

Para nós, terapeutas, o desafio e também a solução é conseguir construir um relacionamento com esse paciente. É criar um vínculo aonde ele possa se perceber aceito e amado, e muitas vezes aonde não existia mais nada em que se agarrar na vida, as sessões de terapia e o relacionamento com o terapeuta podem se tornar o ponto central. Isso, claro, desde que o vínculo possa ser estabelecido e seja genuíno.

A experiência de aceitação restabelece o eixo entre o ego e o Si-mesmo. É bacana ver como um amor, uma amizade ou até mesmo uma experiência religiosa pode tirar o indivíduo de seu deserto e colocá-lo em uma ligação renovada com a vida.

A hora da alienação é a hora que a bolha da inflação rompe. A hora de tomada de consciência sobre nosso verdadeiro tamanho e papel. Esse rompimento de forma alguma é experimentado de forma agradável. Mas precisamos entender, na hora da dor, na hora em que nosso ego encontra-se ferido, que isso é apenas uma dinâmica da sabedoria da vida para nos colocar em nosso devido lugar. Quando encontramos esse lugar, podemos novamente voltar a plenitude (Si-mesmo), mas com consciência de quem somos nós. Ao invés da identificação, estabelecemos uma relação, dentro da realidade e dentro dos limites do eu e do outro.

Não existe outra dinâmica capaz de criar consciência que não seja a da inflação-alienação-relação. Isso pode parecer uma especulação teórica, mas vamos olhar a diferença na qualidade dos relacionamentos, dentro de um exemplo trivial, a importância que isso tem:

Inflação:

Posso namorar com alguém, e achar que ele é meu. Por isso passo dos limites, e me sinto ameaçada e agredida quando o outro não faz aquilo que eu quero.

Alienação:

Posso namorar alguém, mas não me sinto amada. O que será que ele está fazendo comigo? É um terror quando ele sai sem mim.

Relacionamento:

Namoro alguém porque gosto, não porque preciso. Enxergo, reconheço e respeito suas qualidades e necessidades, assim como as minhas próprias. Me sinto amada. Não passo por cima dele, nem por cima de mim mesma. É uma relação de amor.

A forma como nos relacionamos com o mundo denuncia a forma como nosso ego relaciona-se com o mundo interior.

Sei que é um assunto um tanto complexo, mas espero que tenha conseguido passar aqui no texto mais essa dinâmica psíquica, tão importante e tão vivenciada por cada um de nós.

 

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Comentários

  1. Ana, devo agradecer a você por esse post. Quando me disse qual poderia ser o meu problema procurei em muitos lugares sobre o assunto e nenhuma matéria me pareceu tão instruntiva quanto esta, apesar de, como você mesmo citou, o assunto ser um tanto complexo. Obrigada por nos instruir com suas matérias, sem dúvida ela nos ensina a compreender melhor as pessoas que nos cerca. Passarei sempre por aqui para conferir. Abraços.

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