A individuação

Feb 8, 2012 by

Esses dias expus na página do facebook do blog uma frase de Jung que diz o seguinte:  ‎”Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der.”

Nesse post (um pouco mais técnico do que o costumeiro) vou falar sobre o processo de individuação, que é justamente o caminho que o humano deve percorrer para fornecer sua resposta a pergunta “Quem sou eu?”.

Esse processo custa caro – tempo, dinheiro, interesse, dedicação, e assim por diante. E ninguém pode fazê-lo em seu lugar.

A individuação pode ser chamada como a obra que possibilita a realização da personalidade originária, que traz um significado único à existência humana. A individualidade pode ser entendida como a singularidade mais íntima, última e incomparável do indivíduo – o Si-mesmo.

Para Jung  o Si-mesmo se trata, empiricamente, de uma imagem da finalidade da vida – ou seja – uma meta a se cumprir. A finalidade do homem de se realizar enquanto uma totalidade não depende de sua vontade. É antes uma força que move o inconsciente em direção à consciência. A natureza inconsciente anseia pela luz, a qual, no entanto, se contrapõe. Essa tomada de consciência não é dada sem conflito, mas se faz necessária na concepção do homem individuado.

Jung reforça a questão de que o processo de individuação é algo espontâneo, e não depende da vontade do ego. Segundo ele, a consciência do ego é apenas uma parte da totalidade vital, e sua existência não representa a realização desse todo. O inconsciente dirige esse processo, cabendo ao ego um papel auxiliar. O ego precisa adotar uma atitude semelhante à atitude religiosa (de respeito e obediência aos desígnios do Si-mesmo) para que o processo aconteça.

Esse processo começa geralmente no meio da vida, e é realizado através da função transcendente. Essa função é aquela que integra os pares de opostos existentes nas duas esferas psíquicas – consciente e inconsciente.  A função transcendente não se desenvolve sem meta, mas conduz à revelação do essencial no homem.

Jung afirma que essa integração (dos conteúdos inconscientes capazes de se tornarem conscientes) traz consequências notáveis para o ego. Normalmente o ego possui uma atitude unilateral, e se tem em alto valor. Enquanto não assimilar aquilo que considera mal, ruim, pouco valioso, ficará restrito à esfera da persona. Quando as partes sombrias e inconscientes da personalidade se tornam conscientes, produz-se não só uma assimilação delas à personalidade do ego, mas também uma transformação de ambas. O ego se expande, se enriquece, e passa a direção da personalidade total ao Si-mesmo.

 “[...]Se, porém, a estrutura do complexo do ego é bastante forte para resistir ao assalto dos conteúdos inconscientes, sem que se afrouxe desastrosamente sua contextura, a assimilação pode ocorrer. Mas, neste caso, há uma alteração não só dos conteúdos inconscientes, mas também do ego. Embora ele se mostre capaz de preservar sua estrutura, o ego é como que arrancado de sua posição central e dominante, passando, assim, ao papel de um observador passivo a quem faltam os meios necessários para impor sua vontade em qualquer circunstância, o que acontece não tanto porque a vontade se acha enfraquecida em si mesma, quanto, sobretudo, porque certas considerações a paralisam. Quer dizer, o ego não pode deixar de descobrir que o afluxo dos conteúdos inconscientes vitaliza e enriquece a personalidade e cria uma figura que ultrapassa de algum modo o ego em extensão e em intensidade. Esta experiência paralisa uma vontade por demais egocêntrica e convence o ego de que, apesar de todas as dificuldades, é sempre melhor recuar para um segundo lugar, do que se empenhar em combate sem esperança, o qual termina invariavelmente em derrota. Deste modo a vontade enquanto energia disponível se submete paulatinamente ao fator mais forte, isto é, à nova figura da totalidade que eu chamei de self.[...].” (JUNG, em A Natureza da Psique)

 

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Comentários

  1. Olá Michelle!

    Por isso é tão importante que um psicólogo ou analista faça seu processo de individuação. Só assim ele tem condições de ajudar seu paciente a seguir o rumo do Si-mesmo.
    A maioria dos psicólogos junguianos não acredita ser possível finalizar o processo de individuação em vida. Mas a experiência mostra o contrário. Algumas poucas (poucas mesmo) conseguem. Esse processo apesar de começar normalmente na meia idade pode se dar em pessoas bem mais jovens. Pode ser durar uma vida inteira, ou acontecer num flash. Dizemos que existe a via úmida (o processo se desenrola aos poucos) e a via seca (individuação instantânea) aonde o Si-mesmo se impõe tão fortemente que se o ego resistir, a individuação está completa.

  2. Lilie

    Olá Ana! Quais seriam os sintomas dessa imposição do si-mesmo sobre o ego?

  3. Ana Luisa Testa

    Oi Lilie. Todos os que vc puder imaginar! (Isso se for pela via úmida)
    Se for pela via seca, são as grandes revelações numinosas.

    Um abraço!

  4. Tereza

    Oi Ana! Qual seriam os sinais de que estamos percorrendo este caminho? Poderia dar exemplos?

  5. Os “sinais” que temos acesso para saber como anda o processo são as produções do nosso inconsciente (sonhos, imaginação ativa, fantasias e sintomas). As imagens que o inconsciente produz são representações de como anda nossa energia psíquica. Essas imagens apontam o estágio em que o indivíduo se encontra.
    Não tenho como te dar exemplos, porque a questão é extremamente complexa, e o entendimento do conteúdo que determinada imagem expressa depende de vários fatores, como por exemplo a associação pessoal que cada indivíduo traz.
    Mas só para que você entenda: sonhos caóticos, de morros que deslizam, pessoas mortas pelo caminho, etc. são qualitativamente diferentes de sonhos numa paisagem bonita, tranquila, aonde a pessoa conversa com pássaros.
    Mas o trabalho da individuação precisa ser feito conscientemente. Pode até ser que alguém tenha o potencial para isso, mas se não estiver trabalhando para isso, não vai acontecer. O inconsciente não faz o trabalho sozinho, precisa do ego. Senão não tem integração. É uma questão de relacionamento intencional entre as duas instâncias (que por fim voltam a ser uma só, mas diferentemente de uma psicose, a consciência está ali)

  6. Ivan Barros

    Ana:
    Vc é super didática, meus parabéns !
    Fala sempre com muita propriedade sobre o HOMEM CRIATIVO !!
    Vc concorda que esses sonhos tumultuados costumam ser o contraponto de uma consciência tranquila ! enquanto sonhos tranquilos aparecem em momentos de agitação do consciente !
    bj

  7. itamar

    Ana, já leu o livro “Criatividade Quântica” de Amit Goswami? Recomendo-o

  8. Taíse

    Bom dia, Ana! Você teria algum psicólogo junguianos, no Rio de Janeiro, para indicar? Obrigada.

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