Transições, transformações, vida e morte, suicídio…

Nov 13, 2012 by

Quando comecei a pensar sobre esse post, achei que faria um sobre suicídio. Mas conforme fui pensando sobre ele, percebi que esse não deveria ser o único título, porque para falar sobre esse assunto tão delicado, eu deveria falar principalmente sobre outros.

Delicado porque o suicídio pode fazer parte da história de muitas pessoas, seja através de entes queridos que se foram dessa fora, seja por tentativas ou por desejos de dar cabo a própria vida. Para aqueles que perderam alguém próximo um misto de amor, dor, saudade, raiva, culpa e indignação fica por ali tempos esperando algum tipo de elaboração e esquecimento.

Delicado porque cada ciência vai ter seu olhar sobre o assunto… certamente para falar sobre suicídio de uma maneira mais complexa teríamos que passar por religião, antropologia, história, sociologia, filosofia, medicina, psicologia, a própria matemática com suas estatísticas, e assim por diante. Um trabalho digno de Hércules!

Existe um severo julgamento em torno do suicida. Até onde sei os corpos daqueles que tiravam sua vida na idade média não eram enterrados, e sim expostos em praça pública até serem devorados por aves, vermes, e outros animais e finalmente decompor. Essa era uma também uma tentativa de dissuadir suicidas em potencial.

A vida é tida por grande parte da coletividade como algo sagrado, e um presente de Deus. Nesse sentido o único que teria direito de tirá-la seria Ele.

Os estados atrelados à algum tipo de religião também entendiam que o suicídio era como um espécie de “quebra de contrato” com Deus, e tal transgressão talvez configurasse o pior dos crimes. Uma das consequências impostas pelo estado era a absorção dos bens do falecido, de modo que seus herdeiros nada recebiam.

Tem quem acuse o suicida de covarde, por procurar uma saída para o sofrimento da vida. Tem que o acuse de narcisista, que por ser tão identificado com uma determinada imagem, quando ela cai por terra nada sobra naquela pessoa. Tem que diga que ele certamente só poderia ser um doente mental, ou um pobre de espírito que não estava em sã consciência quando tomou sua decisão. Outros se enganam e pensam que tudo isso é apenas um ato de histeria clamando por atenção.

Mas vou provocar um pouco os leitores: por que chamamos de suicídio apenas aqueles atos em que a pessoa acaba com a própria vida de forma rápida e clara? Será que não existem outras formas, um tanto veladas, de provocar “acidentalmente” a própria morte? O que dizer então das barbáries diárias que infligimos aos nossos corpos?

Gostaria de ressaltar em certos contextos o suicídio é uma das mais altas honrarias. Quantos mártires não deram a vida pelas    causas que defendiam? Quantos heróis não se sacrificaram pelo seu povo? Será que alguém se atreveria a chamar o desconhecido rebelde chinês da foto abaixo de covarde ou narcisista? Ou uma Joana d´Arc? Um Sócrates? Ou os 69 tibetanos que se auto-imolaram desde 2009 em protesto ao domínio chinês? Acredito que não!

A partir disto podemos ver que o ato é apenas a casca daquilo que realmente interessa, e quem quiser compreender algo sobre o suicídio deve olhar na própria alma (psique) o que de suicida existe, para também poder olhar para a alma daquela pessoa que vai às vias de fato sem precisar se apoiar nas generalidades que pouco dizem sobre o indivíduo.

Normalmente o suicida quer uma vida nova, ou a extinção da vida velha, que já não faz mais sentido. Em nossa vida passamos por uma série de transformações, de morte e renascimento, e a natureza toda é assim. Até aquilo que chamamos de mineral – um planeta ou uma estrela por exemplo – passa por um ciclo de existência e finalização. Imaginem se os humanos já estivessem mentalmente bem desenvolvidos no útero de suas mães… o que teria de gente se negando a nascer por medo de ser aniquilado… não está escrito!

Aquele bebê que eu um dia fui já não existe mais. Nem a adolescente. Tenho apenas lembranças deles, mas já não estão mais nesse mundo. A forma velha sempre tem que “morrer” para a nova possa surgir. A morte em nosso psiquismo não tem esse sentido de fim, ela está mais relacionada com uma renovação ou uma transformação da forma que a existência utiliza no tempo.

Não dizia Lavoisier que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma? Apesar de ser um enunciado da química, quando ouço essa frase vejo tanta psicologia!!!

A psique é esse algo fabuloso que modula nossas transformações. Esse desejo de morte é um desejo de vida renovada. O que sabe um suicida é que viver dessa forma não dá. E aí tem que suportar a morte dessa forma e o nascimento de um nova. Escrevo suportar porque o esvaziamento do sentido da vida é de uma dor imensa. E psicologicamente, estar “encarnado” é estar coagulado, ligado a este mundo de formas pelas paixões. Quando já não há mais nenhuma ligação significativa com o mundo, a pessoa fica como que “desencarnada”, sem forma, existindo num espaço paralelo. Esta parte do ciclo de vida-e-morte, apesar de desagradável, é essencial para o desenvolvimento da psique. O novo entra em nossas vidas na medida que nossa libido é liberada das formas antigas de existência.

Para ajudar um suicida de nada valem as estatísticas. Para ajudar é preciso suportar com ele a morte do velho, o vazio, e o nascimento do novo.

Talvez o suicida passe para ato aquilo que deveria ser simbólico. Talvez a sua hora tenha chego e sua alma saiba disso. Assim como no útero nós não poderíamos saber se existia vida após o nascimento, pode ser que com a morte a pessoa encontre a vida que tanto esperou. Seja como for, só sabe da verdade aquele que está por dentro da própria pele. Isso não é um assunto para julgado, e sim compreendido.

Espero não ser mal compreendida nesse texto.

Um grande abraço a todos!

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