Automutilação / Cutting: um recurso para lidar com a angústia.

Aug 10, 2013 by

cutting

A automutilação como o próprio nome já diz é a prática intencional de ferir-se fisicamente. Isso pode ser feito de diversas maneiras – se cortando, se queimando, se arranhando, se enforcando por alguns momentos, se mordendo, e assim por diante.

Falarei especificamente sobre o cortar-se (cutting), mas acredito que o texto pode ser utilizado para compreender qualquer espécie de automutilação. O vídeo no fim do texto também pode contribuir bastante para o entendimento da questão, pois traz depoimentos de pessoas que passam ou passaram pela experiência, assim como comentários de duas psicólogas e um teólogo.*

O que leva um indivíduo à cortar-se intencionalmente? É algo complicado de se entender, pois a dor é algo que na maioria das vezes evitamos. Mas nessa ação a lógica não é diferente, pois o ato de provocar uma dor física é sobretudo a forma como esses indivíduos encontraram para aliviar a dor psíquica.

São tantas as maneiras que o humano encontra para livrar-se da angústia que o assombra, e o cutting é mais uma delas. É uma forma de dar contenção, quando o sentimento se sobrepõe ao limite do suportável. Podemos pensar que talvez para esses indivíduos esse seja o único recurso disponível para suportar a angústia.

Mas por que tamanha angústia? Sensações de constrição, separação, aflição, agonia, prisão, ansiedade extrema, desespero e assim por diante são sintomas de um indivíduo que perdeu (ou que nunca encontrou) o sentido de sua própria existência. Somos convocados à encontrar essa reposta e também a vivermos de acordo com ela – caso contrário a angústia nos asfixia até a morte se for necessário.

O cutting não pode ser visto como banal, como um “chamar a atenção”. Ele é o sintoma de uma profunda dor psicológica que não consegue ser expressa e elaborada de outra forma. Por vezes existem episódios em que nem o cortar-se é suficiente para conter a angústia, e então podem ocorrer as tentativas de suicídio.

Tanto um quanto o outro podem ser compreendidos como um desejo inconsciente de contactar a alma, no anseio de sentir-se alguém vivo. O sangue é um dos grandes símbolos da alma, tanto que em diversas tradições beber o sangue de alguém é apropriar-se das características desse indivíduo.

O cutting não é doença, é sintoma. E tem “cura”. O caminho terapêutico consiste em apresentar ao indivíduo outros meios para expressar e dar contenção a própria angústia, assim como auxiliá-lo a dar significado a sua existência. Enquanto o ego não for capaz de suportar e compreender a própria angústia, continuará repetindo esta barbárie em troca de alguns poucos momentos de paz…

* Este documentário é um Projeto Experimental de Conclusão de Curso de Rádio, Televisão e Multimídia do Grupo Universitário IPEP 2011 – Campinas – SP
Autores: André Luiz Cassanelli, Mariana Campos Barroso, Renata Toledo Cardoso, Yuri Stapelbroek
Orientação: Eduardo Gurian
Trilha Sonora: Lucas da Silva Montes

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