Além, muito além da psicologia…

May 2, 2014 by

delphos

Para ser psicólogo (daqueles que trabalham com o inconsciente) ouso afirmar que a psicologia não basta. Não saberia nem dizer de tudo o que é preciso, até porque muitas destas características se relacionam mais à pessoa do que ao conhecimento que ela tem. Mas não vou entrar nesse mérito, hoje vim entrar em outro: precisamos beber da água de diversas outras áreas do conhecimento se quisermos entender a psique humana.

Jung falou disso ao afirmar que precisamos estudar mitologia, religião comparada, fábulas, contos de fada, parábolas, artes, e assim por diante se quisermos entender os produtos do inconsciente humano. Ele mesmo dedicou importante parte de sua obra ao estudo das religiões e da alquimia.

Essas disciplinas são a expressão do inconsciente, e seus conteúdos estão vivos na psique homem moderno. Por todos os meios que dispomos de acesso ao material inconsciente de nossos pacientes (sonhos, fantasias, imaginação ativa, sintomas, lapsos, técnicas projetivas, etc.) percebemos paralelos com as áreas acima mencionadas. E o inconsciente é por si só obscuro, então é de grande auxílio essa bagagem de conhecimento se quisermos compreender o que acontece na psique dos nossos pacientes.

Muitos junguianos passam longe do estudo do simbolismo da alquimia, pela difícil compreensão ou até mesmo preconceito. Porém existe uma diferença entre o estudo da alquimia e de outras tradições, isto porque o simbolismo das demais apesar de ter origem no inconsciente é organizado por uma consciência coletiva, dentro de modelos daquela tradição, enquanto que na alquimia não, pois era um trabalho feito individualmente, às escondidas, e com pouca doutrina estabelecida.

Quando isso acontece é como se a consciência selecionasse os elementos que se encaixam dentro da tradição e excluísse aqueles que não tem paralelos. Até porque desconhecendo os modos e bons costumes, o inconsciente adora uma grosseria e obscenidade! São raros os depoimentos genuínos que encontramos por aí acerca da experiência de um indivíduo em seu confronto com o inconsciente.

Como a consciência sempre se apoia em uma ordem, um modelo, é comum adotarmos uma tradição como norte na interpretação desse material, e nós terapeutas devemos cuidar muito com isso, ao dar atenção somente ao material que podemos esclarecer e abandonar o resto.

Os alquimistas produziram uma quantidade enorme de relatos acerca dos conteúdos inconscientes sem doutrina – isto é – um programa pré estabelecido sobre o que deveria ser encontrado – e portanto esse material é um dos mais fiéis retratos da realidade psiquica inconsciente.

Por ter pouca interferência da organização consciente, torna-se uma arte sua compreensão. Essa disciplina é em si mesma tremendamente obscura e complexa, e há que se fazer um esforço grandioso para prosseguir nas leituras. Isso que hoje dispomos de bastante material de comentadores que nos ajuda à clarear o entendimento. Mas se quisermos orientar alguém que pede nossa ajuda da melhor forma possível não temos como escapar dessa! O grande papel do psicólogo é ajudar à esclarecer, quase como um tradutor, as vozes interiores. Se não fizer isso vai seguir receita de bolo, generalizada, sobre o que é bom ou ruim para alguém. E isso o mundo lá fora já faz, o nosso papel é outro: encontrar o designo do indivíduo. Coisa que ninguém, além da psique total do paciente, pode oferecer a resposta.

 

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