Os arquétipos da jornada do herói na infância – o órfão e o inocente

Sep 21, 2009 by

Arquétipo do Órfão

Devo começar esse artigo dando uma breve explicação sobre o que seriam os arquétipos. Pois bem: da mesma forma que a espécie humana carrega em seu DNA características anatômicas e fisiológicas, que colocam seus indivíduos dentro do grupo dos humanos, ela também traz consigo conteúdos psicológicos universais, que vão moldar o desenvolvimento humano e os relacionamentos existentes.

Todos nós temos, por exemplo, uma idéia do que é uma “mãe”, um “sábio”, um “bobo”, um “deus” e por aí vai. É como se nossa psique fosse povoada por vários personagens, que possuem uma maior ou menor capacidade de nos influenciar durante vários períodos da vida.

Todos esses personagens arquetípicos são encontrados nos homens através dos tempos, nas mais variadas culturas, e toda história mitológica tem como base um ou mais arquétipos. Essas histórias nos contam sobre nossas características e formas de se relacionar com o mundo.

Pois bem. Voltando agora ao título do artigo, vamos falar sobre quais arquétipos aparecem em nossa infância e de que forma nos ajudam e nos influenciam.

A coisa mais importante para o desenvolvimento de uma criança é a segurança. Uma criança segura é aquela que recebe proteção e assistência para seu crescimento. Nessa fase dois arquétipos aparecem para ajudar a criança em sua busca por segurança: o ÓRFÃO e o INOCENTE.

Quando os dois aparecem de forma equilibrada e não em oposição, temos uma criança interna que sabe avaliar as situações com precisão e sabe quando pode confiar e quando não pode. Esses arquétipos servem para garantir a segurança. Conseguimos ver a dor dentro e fora de nós, e ainda ter a fé necessária para reverter as situações negativas. Um herói que tem o órfão e o inocente integrado não é tomado nem pelo pessimismo nem pelo otimismo. Ele tem DISCERNIMENTO.

O pensamento da criança é concreto, e por isso tende a julgar as coisas de forma limitada e dualista. Separam por BOM e MAU. A integração dos arquétipos infantis nos dá a capacidade de integrar e conhecer o bem e o mal que existem nas coisas e nas pessoas (inclusive em nós mesmos). E então aprendemos não só em quem confiar, mas em quais momentos e em quais circunstâncias.

É importante dizer que o órfão e o inocente não estão presentes apenas na infância, e sim para a vida toda. O que ocorre no começo da vida é o desenvolvimento desses temas arquetípicos, e possivelmente a fixação em um deles, o que compromete nossa vida e nosso jeito de ser até que o conflito tenha uma resolução e os dois possam se harmonizar.

Quando o Inocente está mais evidente ou mais desenvolvido tendemos a ser otimistas e a confiar excessivamente nas pessoas e em situações, descuidando de nossa segurança. Pessoas que possuem dentro de si a criança inocente tendem a ser felizes, mas se expõe ao perigo. Também têm pouca paciência com indivíduos negativos. Podem ter uma impulsividade digna daqueles que não acreditam ser possível se machucar. São aqueles que entram de cabeça nos relacionamentos amorosos, com a certeza que desta vez vai ser pra valer! Vão morar juntos no primeiro mês de namoro para separarem no seguinte. Os inocentes tendem a ter expectativas muito elevadas sobre as coisas e pessoas, e que quando são frustradas os jogam para a dominância do Órfão.

Quando o Órfão está mais presente carregamos uma melancolia e uma desconfiança muitas vezes injustificável, pois é como se estivéssemos sempre indefesos. Damos muita importância a pequenas coisas, e tendemos a agir como vítimas impotentes. Desejamos que os outros no ajudem, mas ajuda alguma será suficiente. É como diz um paciente meu: “Ser otimista pra que se não vai dar certo mesmo?!” As metas parecem impossíveis, e com o tempo a pessoa deixa de querer ou deixa de sonhar… tudo para evitar o sofrimento “certeiro” que sua fantasia criou.

Até experimentarmos a integração desses nossos arquétipos infantis viveremos num eterno desapontamento com as pessoas, ou numa situação de fechamento em si mesmo para evitar as frustrações e rejeições. Ou mais provável ainda de uma situação para a outra.

Aceitar a vida como ela é, com suas alegrias e tristezas, é o que nos confere um aspecto de paz e satisfação. Isso nos permite encarar a vida sem os medos do órfão e sem os desapontamentos do inocente. A vida é o que é, e a beleza está na busca, no viver e não só na conquista ou aquisição daquilo que queremos.

Referência:

PEARSON,C. S. O Despertar do Herói Interior, 1991.

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