Precisamos falar sobre morte…

Jul 22, 2015 by

adeus

Senti necessidade de falar sobre morte após testemunhar uma história que me trouxe grande perplexidade. Não pela morte, mas pela luta quixotesca travada com ela. Uma senhora, já bastante idosa, debilitada e sem chances de melhora ansiava por sua morte em um hospital. Em desespero a família moveu quantas montanhas fora possível para que ela continuasse viva – apesar de seu sofrimento físico e desejo de partir. Em nome de que, me pergunto, esse movimento fora feito? Será amor? Sem dúvidas essa senhora era absolutamente estimada por seus familiares. Mas o amor tem uma questão de sacrifício do “eu” que vem antes da posse e do apego. Seu “ser” não fora levado em conta nessa equação, somente seu corpo. Quiseram submeter a velhinha à todo tipo de intervenção para ganhar tempo além de seu tempo. Mas e sua alma, quem esteve são para olhar? Não foi só por amor, foi por cegueira também.

A tal senhorinha chegou a ser amarrada em seu leito de hospital, pois fazia tentativas frequentes de retirar sua sonda nasogástrica. Meu Deus… isso me deixa perplexa. Não sua tentativa, absolutamente legítima, mas sua contenção. Mais ainda quando penso que se fosse um parente meu, possivelmente eu faria a mesma coisa: conteria! E se eu fosse a velhinha? Como será isso de ter sua vida prolongada porque as pessoas que decidem por você não suportam sua partida? Não se esqueçam que essa “vida” prolongada não era em almoços de domingos ensolarados. Era num hospital, amarrada, com escaras e frequentes doses de morfina para suportar a dor física. E nenhuma perspectiva de melhora.

Nossa dificuldade em lidar com a morte é o que reside nessas atrapalhadas decisões. Essa ideia de que a vida deve ser salva a qualquer custo atropela as necessidades e os movimentos da alma. Nossa cultura não fala disso, não vamos aos velórios, aos enterros, ao cemitério. O dia de finados parece que só existe para quem ainda está enlutado. E vamos assim, disfarçando, desviando, até que BUM… ela bate em sua porta, e você não teve chance de entrar em paz com essa realidade: a presença da ausência.

Ouço histórias de pais que correm comprar um cachorrinho igual ao que morreu para que a criança não perceba essa ausência. Para que não conheça a morte, para que não sofra essa dor. São tantos os malabarismos inventados para preencher um espaço que se abre (dentro e fora) que podemos passar um bom tempo até perder algo ou alguém realmente insubstituível. E nos vemos num completo despreparo, sem termos desenvolvido recursos para enfrentar a perda.

Nossas poucas referências culturais normalmente jogam um olhar negativo sobre a morte… como se fosse grande um inimigo que deve ser combatido. E talvez deva mesmo, mas só enquanto a vida puder ser vivida com dignidade. Voltando a nossa história, não parece ter sido o caso. Quando soube que a senhora morreu senti grande alívio. A família não conformada fez o que qualquer um de nós poderia ter feito: desconfiou dos médicos e da equipe do hospital. Isso também mostra que enxergamos a medicina como algo que ela não é: remédio universal para todos os males. Elixir da imortalidade. Fonte da eterna juventude. Esse depósito de fé exacerbada na ciência e a tecnologia (nossos deuses modernos) é fantasiosa. E então a morte ao invés de ser vista como algo natural passa a ser vista como erro e negligência. Por favor, me perdoem a grosseria, mas a morte vem, inclusive para você e para os seus. E não existe malabarismo invencível. O relógio continua rodando.

Outras sociedades, distantes no tempo e no espaço, reservam um lugar para a beleza do envelhecimento e também da morte. Ignoram menos a finitude das coisas temporais – e justamente por isso são capazes de aproveitar esse tempo com mais esmero. Nossa cultura tem horror a passagem do tempo. Todos querem ser adultos: tanto os jovens quanto os idosos. Menos o adulto. Ele não gosta muito disso, secretamente inveja os jovens. E então consumimos todas as promessas de rejuvenescimento ou congelamento do tempo. Aproximar-se desse assunto virou tarefa marginal, feita em alguns poucos redutos religiosos, filosóficos ou em consultórios de psicologia. O que predomina mesmo é o silêncio.  Precisamos falar sobre morte…

“Num certo momento da vida, não é a esperança a última a morrer, mas a morte é a última esperança.” Leonardo Sciascia

 

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Comentários

  1. Não sou a favor da eutanásia e nem do suicídio. Estudo sobre os dois assuntos. Segundo os estudos, os espíritos não encontram a paz desejada. Pelo contrário, prolongam seu sofrimento. Sou a favor da Educação para a morte. Pois nossa cultura é ignorante e egoísta sobre esse assunto. A morte é um ciclo, que todos iremos passar.

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