A clínica na Psicologia Analítica

Apr 29, 2017 by

Alquimia

 

 

Olá!!! Faz uma eternidade que não publico aqui. Confesso que não tenho tido muito tempo de pensar no blog, por conta das inúmeras tarefas que a vida demanda. Mas vim falar hoje sobre um pouco sobre a clínica na Psicologia Analítica. Isto é apenas um esboço, e somente sobre o que C. G. propõe como método no volume XVI/1 das Obras Completas –  A prática da psicoterapia.

Quando pesquisamos o que diz Carl Jung neste volume a respeito da clínica psicológica, percebemos que ele emprega o termo “clínica” no sentido de espaço físico de atendimento psicoterapêutico, e o termo psicoterapia quando diz sobre a relação dialética entre médico-paciente. Jung vem de um tradição médica, e a psiquiatria de seu tempo atribuía às psicopatologias uma causa orgânica. O psiquiatra suíço, no entanto, em sua prática clínica num hospital psiquiátrico, elaborou sua teoria dos complexos e foi se distanciando da psiquiatria clássica por considerar que as psicopatologias poderiam ser causadas também por questões psíquicas.

A psicoterapia vem então atender à esta demanda por um tratamento psicológico, e o método clínico junguiano é por excelência definido como um método dialético, isto é, um diálogo entre duas ou mais pessoas. O encontro entre dois sistemas psíquicos, que em interação se afetam mutuamente. O paciente é visto tanto em sua generalidade quanto em sua individualidade – o que implica dizer que uma psicologia pode se valer do status de ciência enquanto visa a compreensão das universalidades humanas, ao mesmo tempo em que sua prática demanda a renúncia do saber “médico” de antemão, pois cada sujeito é carregado de individualidade e respostas genéricas como sugestões ou conselhos pouco podem fazer por ele. “[...] a parte individual é única, imprevisível e não interpretável. O terapeuta deve renunciar neste caso a todos os seus pressupostos e técnicas e limitar-se a um processo puramente dialético, isto é, evitar todos os métodos.” (JUNG, p. 18, 2011).

Diferentemente do modelo clássico da clínica psiquiátrica, em que o paciente ocupa um papel passivo, de doente, e o médico um papel ativo e de autoridade do saber, na clínica junguiana o terapeuta não é mais o sujeito ativo. Ele vivência junto ao paciente um processo evolutivo individual. Esse processo dialético depende do estabelecimento da transferência, e apesar de muitas vezes visar a “cura”, isso nem sempre está presente como o objetivo maior, pois todos os elementos da individualidade do paciente são encarados com a mesma dignidade. Curar pode pressupor uma grande modificação na personalidade do sujeito, significa tornar sadio um doente, mas quando um doente reconhece que a cura significaria renunciar demasiadamente à sua personalidade, o terapeuta deve renunciar à sua vontade de curar. E então o processo analítico será voltado para o que Jung denominou individuação – o paciente se torna aquilo que de fato ele é, e até mesmo aceitar seus sintomas, através do entendimento do sentido de sua doença. Cura e adaptação social podem aniquilar a individualidade do sujeito. A busca primeira é pela coexistência das singularidades com a coletividade.

Nesta obra, Jung também borda a multiplicidade de métodos clínicos, e busca encontrar quais pontos entre estas diferentes psicologias podem convergir no que chamamos de psicoterapia. Ele enumera quatro etapas no processo analítico:

1)    Confissão – aquilo que está oculto, tanto consciente quando inconscientemente (complexos, segredos, afetos, etc.), é um fator de isolamento e perturbação psíquica. A confissão não só dos conteúdos, mas especialmente a liberação dos afetos contidos tira o indivíduo de seu exílio moral;

2)    Esclarecimento – através da análise e da interpretação da transferência. As fixações infantis do paciente são reveladas pouco à pouco, e o paciente passa à tomar responsabilidade por si mesmo. O esclarecimento pode despertar forças adormecidas;

3)    Educação – a adaptação e a educação para um ser social;

4)    Transformação – esta etapa faz referência às coisas que não se relacionam à ser um humano normal socialmente ajustado. À quais necessidades profundas essa “alma” demanda atenção? A psique não deve ser apenas domada e ajustada – também precisa se realizar.

Por tudo o que foi exposto, fica evidente a importância que se dá à individualidade na clínica analítica, assim como a importância de trabalharmos em pé de igualdade com nossos pacientes, especialmente no que diz respeito à atividade/passividade e ao saber/não saber. A clínica é um espaço não físico, e sim relacional, dialético, de escuta e intervenção não genéricas. Vale ressaltar que na atualidade tem crescido a produção técnica sobre o manejo clínico em outros ambientes que não o clássico do consultório, especialmente sobre como trabalhar com grupos vivenciais em diversos contextos com a abordagem junguiana.

Abraços!!!

Ana Luisa Testa

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