O complexo de Jocasta

Oct 15, 2009 by

jocasta

Jocasta foi a mãe de Édipo (ler último post sobre o Complexo de Édipo), posteriormente sua esposa e mãe de suas 4 filhas.

O termo Complexo de Jocasta foi proposto por Raymond de Saussure quase 100 anos atrás. Ele designa a ligação afetiva deturpada que algumas mães sentem por seus filhos. Uma forma de amor que pode variar desde a superproteção com características simbióticas até fixações sexuais em relação ao filho.

É mais comum encontrarmos a variação do complexo de Jocasta naquela mãe que parece que não quer que seu filho cresça – pois significa que ele se afastaria dela. Que seja sempre “SEU bebê”.

Tudo bem, entendo que quase sempre ao mesmo tempo em que os pais ficam contentes por verem o desenvolvimento de seus filhos eles podem sentir aquela tristezinha de vê-los ficando independentes… isso não é sinônimo de  complexo de Jocasta. O problema ocorre quando os pais não enxergam (negação) que os filhos devem ter  outros papéis na vida  para que sejam felizes.

É aquela mãe que não aceita nenhuma das namoradas que o filho escolhe…  Como se o filho ainda fosse dependente e não soubesse fazer escolhas. Ela é quem sabe.

É aquela mãe superprotetora que vê o filho já grande cometendo atrocidades e ela ainda assim o protege… como se ele fosse incapaz de ser responsabilizado.

É a mãe que o superprotege fazendo tudo por esse filho – desde sua comidinha favorita até se matando para agradá-lo em suas necessidades mais caras e extravagantes. Como se ele próprio não pudesse trabalhar ou fazer sacrifícios para realizá-la. E o que vem fácil geralmente não tem valor.

A consequência desse tipo de comportamento é um adulto infantilizado e narcisista que não consegue assumir compromissos na vida. Espera ser servido. Não tem limites e pode manipular os outros em seu próprio benefício por considerar-se muito especial. Sim, pois ele sempre esteve neste lugar, neste pedestal. E a vida real – e os relacionamentos com as mulheres reais – fica muito difícil de ser levado já que o lugar junto a mãe é muito mais sedutor.

Vou dar um exemplo que pode facilitar o entendimento do que é o complexo de Jocasta:

Conheço uma senhora que tem 4 filhos adultos (entre 30 e 40 anos) e nenhum deles se casou. Ninguém prestava para estar com seus filhos. E essa sogra se envolvia tanto nos relacionamentos de seus filhos que as pretendentes não aguentavam e iam embora. Era uma eterna briga entre nora e sogra. Dois desses filhos ainda moram com a mãe.

Essa senhora tem um neto de 8 anos – fruto de um relacionamento falido de um de seus filhos . Esse neto gosta muito da avó que sempre o enche de presentes, guloseimas e chupeta(!). Presentes caros, guloseimas calóricas e chupeta de bebê. Ele é criado pela mãe e sempre quer ir na casa da avó. Na casa da mãe as guloseimas são reguladas, a chupeta já foi tirada – com muito sacrifício – e tem brinquedos sim. As vezes ganha um mais simples no dia a dia, mas presentes caros são reservados para o natal, aniversário e dia das crianças. Como deveria ser.

Essa mãe tem dificuldade para lidar com a sogra pois o nível de sedução por parte da última é muito grande. E é problemático na medida em que as consequências desse comportamento sedutor não estão sendo avaliadas por essa avó. Ela não colabora para que esse neto se desenvolva para a vida real. E aí ficará muito dificil sobreviver e relacionar-se com pessoas reais.  Sua preocupação é que ele seja seu. É um amor onde o outro é visto como uma propriedade.

Agora imaginemos uma situação aonde uma mulher consiga se casar com um homem que seja filho de uma Jocasta dos tempos modernos. Esse homem estará ligado primeiramente à mãe. Sua esposa não tendo o marido consigo possivelmente fará essa ligação com os filhos, repetindo a história.

Uma mulher que não tem o marido para si ainda pode ter vida própria e não ver nos filhos toda a responsabilidade por sua realização.

Quando os pais são felizes e exercem outros papéis (profissional, social, sexual, etc.) os filhos ganham esses mesmos direitos e a educação não será sinônimo de dívida e sedução e sim de amor, preparação para a vida e apoio.

É a velha e sábia história que diz que os filhos devem ser criados para o mundo…

Artigos relacionados

Compartilhe

Comentários

  1. Olá Priscilla. A terapia de casal pode ajudar sim, mas existem algumas questões que interferem muito no resultado. Acho que a primeira delas é o nível de comprometimento que o casal tenha com a relação. Sabe aquela vontade de consertar as coisas, fazer tudo dar certro?
    Outra coisa que vejo é a capacidade de mudanças que cada um tem. Algumas pessoas não estão dispostas à mudar, e não tenha muito oque se possa fazer em relação à isso. Seja como for, converse com seu marido e veja a disposição dele para entrar nesse tipo de intervenção. Mesmo se ele não topar, talvez vc poderia fazer para entender melhor o que acontece em seu casamento e poder tomar as decisões mais certas para sua vida. Um grande beijo!

  2. Daniela

    Nossa que loucuraaa!!! Vivo um dilema com meu namorado e a mãe dele. É um Deus me livre, ultimamente ele tem me deixado mofando em casa enquanto fica em casa com ela para que ela nao fique só… Achei fantástica e esclarecedora essa parte:

    “Uma mulher que não tem o marido para si ainda pode ter vida própria e não ver nos filhos toda a responsabilidade por sua realização”.

    Justamente o fato.. já pensei em terminar e sinto que a relação esta naufragando por causa dela, ou melhor, deles, é uma simbiose, parece que nao cabe mais ninguem entre os dois.

    Help!

  3. Grasiele

    Existe o gênero masculino do complexo de jocasta? No caso,de um pai para uma filha?

  4. Olá Grasiele!

    Existe sim! É chamado de complexo de Griselda.
    Funciona basicamente da mesma forma, mas aqui o pai inconscientemente (ou até mesmo conscientemente) teme perder sua filha para outro homem. No caso, seu argumento ou pensamento básico será de que nenhum homem é suficientemente bom para sua filhinha.
    Isso pode ser visto naqueles pais que fazem de tudo para que suas filhas permaneçam infantilizadas, e especialmente não sexualizadas.
    Assim como o complexo de édipo corresponde ao amor do filho pela mãe, o complexo de electra corresponde ao amor da filha pelo pai. No mito de Electra ela mata sua mãe para vingar a morte do pai que tanto amava. Na psicanálise freudiana não existe distinção: o termo complexo de Édipo é utilizado tanto para homens como para mulheres. A proposta da diferenciação dos termos partiu de Carl G. Jung, o fundador da psicologia analítica.
    Respondido? Espero que sim! Qualquer dúvida só me escrever!
    Um beijo!

  5. luciene de fatima

    Adorei o texto,Muito bacana.Beijos.

  6. Celia

    Namoro um rapaz de 30 anos e desde que o conheci percebi o quanto a mãe dele é dominadora. Lendo este texto, imaginei se é isso o que se passa com ela, pois o marido é um homem muito desligado (por conveniencia, eu acho!) e não dá a devida assistencia a ela e à casa, assim sendo ela cobra tudo do filho, que é o caçula, após duas mulheres. Ele se sente sufocado, mas tambem não vinha fazendo muita coisa pra mudar essa situação. Agora que ele tem tomado algumas atitudes diferentes, ela o interroga para saber se há alguma mulher na vida dele (ela n sabe do nosso relacionamento, pois sou mais velha que ele e a familia muito preconceituosa), como se isso a ameaçasse! Imagina onde fui me meter! rsrs Mesmo assim, valeu pelo texto!

  7. Anonimo

    Antes de mais nada, parabenizo pelo texto e pela ajuda que presta com tais informações.
    Assim como as outras meninas, vivo uma situação de complexo de Jocasta com a mãe do meu namorado. Ele reconhece a doença da mãe, mas não consegue seguir seu “destino” pelo jogo psicológico que ela faz, como escâncadalos, atribuição de culpa, ataques a possíveis ameaças (no caso a minha própria pessoa). Não permite que ele saia de casa em busca de melhores condições, assim foi com a faculdade e assim está sendo com o emprego. Existe algum meio de uma liberdade sem traumas, sem acusações, sem escandalos, sem distorções?? Afinal, para evitar esse conflito e briga em família ele prefere se anular.

  8. Sera que um conflito é algo tão ruim assim? Penso que nao…

  9. Anonimo

    Bom Ana, não sei se meu pensamento é correto, mas acredito que o conflito é ruim. Acredito que o ser humano em estado de equilibrio busque a harmonia, e se impor pode gerar uma situação de desarmonia familiar. Não imagino um ser humano que se sinta satisfeito diante dessa situação, afinal, não vai haver completude, se por um lado existe um preenchimento pela conquista, por outro existe o massacre psicológico, as situações injuriosas, caluniosas e difamatórias.

  10. Ana Luisa

    O conflito faz parte da realidade humana. As vezes temos tanto medo de lidar um com um connflito latente (ele ja existe, soh nao esta exposto) que nos submetemos ao desejo dos outros. Para construir harmonia criaçao e destruicao devem andar juntas. Com isso nao eh necessario caluniar ninguem, apenas colocar na relacao os desejos do “eu” tb.
    E os lacos familiares na maioria das vezes suportam esses abalos.

  11. Anonimo

    E cm lidar com uma situação então de calúnia e difamação, reações extremistas, pela própria mãe?

  12. Rafa

    Verdade, também gostaria de saber sobre como lidar com uma situação de calúnia, difamação e reações extremistas por parte da mãe. Desde já grato por ter criado este site tão esclarecedor! Um grande abraço!

  13. tania

    o sentimento humano em relaçaoaos familiaresé complexo e muitas vezes angustiante.Passa rapidamente do querendo para o desprezo, do amor para o ódio agradável para o nojo.Difícil entender esta confusão de sentimentos…

  14. vanda prezotto

    Tenho um filho que é muito bom, mas quando ele namora ela não quer mais a minha amizade. Não tem tempo para conversar os assuntos da família. Fica ausente até semanas. Quando eu reclamo ele disse que eu preciso de psicólogo. Aí eu choro muito e vou para a igreja. O que eu devo fazer? porque a nossa distância está aumentando cada vez mais

  15. Olá Vanda,

    Quando as pessoas namoram é muito comum que elas “sumam”. No inicio de qq paixão o que importa é apenas a companhia um do outro.
    A família reclama, os amigos reclamam…. mas é assim mesmo.
    Se te causa sofrimento procure uma terapia, até para entender oq está acontecendo.

    Um abraço

  16. Maria do carmo

    Olá sou psicopedagoga e atendo a um caso em que a cça é filha única, com essas características, mas tenho dificuldades em dialogar com a mãe.

  17. Elenckey Pimentel

    Esclarecedor! Parabens.

  18. Rapha

    Vivo essa situação com meu marido. Sofro muito e até hoje não tive filho, pois não tenho segurança….a mãe dele sempre se fez de vítima, coitada, usando de suas enfermidades para manipular. Mas também é autoritária e mandona, manda até no marido dela. Nunca nos ajudou em nada, morei atrás da casa dela por quase 8 anos e na primeira briga ela já veio se intrometer. Um dia ela falou para mim que meu marido nunca sairia da “barra da saia dela”. Tive que engolir isso por anos. Há 2 meses mudamos de casa, graças a Deus. Mas agora ela ficou “doente” (ela já era hipertensa, colesterol alto e pré-diabética). Não anda comendo, demonstrando-se triste…Até falar que eu não gosto dela, ela falou. E olha que eu que arrumava os medicamentos dela, hein. Não sei que o fazer, não gosto de ver meu marido indo na cada dela….trabalhamos e só nos vemos à noite e olhe lá, quando um já não está dormindo. Ai chega no sábado, ele quer ir pra casa da mãe? Ai depois se lembra de mim? Acho que lindo o carinho entres pais e filhos mas um homem de quase 40 anos ficar de agarramento com a mãe….é estranho para mim. Parabéns pelo blog e obrigada pela ajuda!!! Beijos

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title="" rel=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>