Individuação: o tornar-se único.

Oct 28, 2009 by

O eu e a coletividade

Dentro da psicologia analítica utilizamos o termo INDIVIDUAÇÃO para designar o processo de desenvolvimento psicológico que nos permite chegar ao nosso verdadeiro eu e integrar as partes desconectadas que temos conosco.

É muito comum nos encontrarmos em situações que nos deixam com a sensação de sermos duas (ou mais) pessoas. Por exemplo: as vezes nosso lado racional diz uma coisa totalmente divergente do nosso lado emocional – e não sabemos quais decisões tomar. Se somos apenas uma pessoa, porque existem tantos conflitos assim? Talvez esses conflitos indiquem que não estamos vivendo dentro da unidade de nosso ser. Como um vaso quebrado… tem uma estrutura que nos dá a impressão de ser uma unidade mas quando nos aproximamos vemos rachaduras e cacos quebrados. A integração desses cacos deveria acontecer durante a vida e é um processo facilitado pela psicoterapia. A essa integração damos o nome de individuação.

Mas o termo individuação causa uma certa estranheza, na medida em que muitas pessoas podem confundi-lo com individualismo. E nada poderia ser mais distante do que esse conceito transmite.

Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso eu verdadeiro e um ser mais unificado, mais coerente consigo próprio. Muitas das formas de identidade que construímos ao longo da vida são, na realidade, alienações de nosso eu. Negamos nosso verdadeiro eu (o self) em benefício de papéis sociais impostos ou esperados de nossa parte. Mudamos porque nossa sobrevivência depende de nossa capacidade de adaptação ao meio. E fazemos o que podemos.

Muitas dessas mudanças ocorrem ainda durante a infância – e uma criança, por sua imaturidade psíquica – acaba por criar mecanismos de defesa toscos, e eles são levados com frequência juntos pela vida toda. Na medida em que amadurecemos podemos analisar essas defesas e julgar se ainda são necessárias ou não.  E se forem podemos substituí-las por defesas mais elaboradas.

Mas não criamos defesas apenas para nos protegermos. É muito comum mudarmos nossa identidade em busca do amor. Fazemos o que for preciso para sermos amados e aceitos. Correspondemos àquilo que a sociedade espera de nós. Em ambos os casos, verifica-se uma preponderância do OUTRO e não do SELF. Ou do self projetado nesse outro. A renúncia do eu em favor do coletivo corresponde a um ideal social; passa até mesmo por virtude, embora possa significar às vezes um abuso egoísta. Essa renúncia traz a nós sofrimento, a medida que nos distanciamos daquilo que somos. Atuamos em personagens enquanto não desenvolvermos o senso de direito de existir da forma que somos verdadeiramente.

O irônico nisso tudo é o seguinte: quando somos amados por aquilo que não somos isso acaba virando uma prisão – ou seja – ter que dar conta de não decepcionar a coletividade falhando em seu papel. E além disso o indivíduo pode até ser amado – mas jamais sentirá que de fato o é. A única forma de sentirmos genuinamente que somos amados é quando nosso personagem diz adeus e nos mostramos como somos .

Mas isso não quer dizer que para nos individuarmos nos tornamos egoístas. Pelo contrário: a realização pessoal dos indivíduos dentro de uma sociedade só traz benefícios à ela. O egoísta é aquele que pensa somente em si e manipula situações em benefício próprio.

Já o processo de individuação traz ao individuo a capacidade de realizar-se e desenvolver as mais belas qualidades coletivas do ser humano. A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas. Em outras palavras: é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é. Com isto, não se torna “egoísta”, no sentido usual da palavra, mas procura realizar a peculiaridade do seu ser e isto, como dissemos, é totalmente diferente do egoísmo ou do individualismo. De acordo com suas peculiaridades e seus dons poderá contribuir socialmente de acordo com aquilo que ele é.

Alguém individuado sabe sobre seu senso de responsabilidade perante os outros. E não é responsável porque esperam que ele seja,  ou pelo seu masoquismo, ou para garantir outras coisas em troca… e sim porque existe humanidade o suficiente em si para entender a dor e a necessidade do outro.

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Comentários

  1. Tenho aprendido muito com seus artigos, estávamos mesmo precisando de um site assim. Só tenho que agradecer uma atitude tão louvável. Quanto ao individualismo eu acho que é um processo de reestruturação do ser. Já que, estamos em constante desenvolvimento e precisamos olhar, voltar-mos para dentro, resolver os conflitos internos, para que então possamos reintegrar-se novamente ao coletismo.
    Minha opinião.

  2. Giovane

    Legal seu texto. Explico bem ^^

  3. Du Cabrera

    Como sempre, fantástico!!!!

  4. Leonor

    Sempre tem-se muito a aprender, e lendo os teus textos aprimoro-me. Valeu

  5. any

    excelente artigo!!

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