A loucura cotidiana.

Dec 4, 2009 by

insanidade

Todos nós temos uma certa idéia sobre o que ou quem é o louco. O louco é aquele que perdeu o contato com a realidade. Vê coisas que não existem, ouve outras que ninguém disse. Muitas vezes não se prende ao seu próprio corpo: pode se fundir – e se confundir -  com o ambiente, com outras pessoas  e com o próprio universo.

Para o louco é como se as fronteiras entre o mundo interno e o mundo externo fossem muito frageis. Mas se engana quem pensa que o louco está muito distante de nós.

Talvez nossa percepção da realidade também seja comprometida, e a influência de nossos conteúdos internos seja muito grande na realidade externa. Quem ainda não imaginou (e até mesmo teve certeza) de que o companheiro tem outra mulher, mesmo sem qualquer evidência concreta? Talvez essas desconfianças estejam mais ligadas à baixo auto estima dessa esposa, a sua dificuldade de sentir-se amada e a seu complexo de inferioridade do que com o comportamento de seu marido.

Quem nunca ficou com a pulga atrás da orelha ao imaginar que os colegas de trabalho não gostam ou falam mal de nós, mesmo sem termos ouvido nada de concreto? Talvez essa impressão, que pode comprometer tanto os relacionamentos laborais, tenha mais a ver com  nossa paranóia e com nosso narcisismo do que qualquer outra coisa.

Quem nunca se achou dono da rua ao dirigir no caos, dono de alguém ao querer determinar o que é melhor para o outro? Em nossa loucura, achamos que sabemos e podemos mais e melhor que os outros.

Quem nunca olhou para si e acreditou não possuir quaisquer qualidades? Ou se olhou no espelho e não viu beleza? Isso é tão distante da realidade! Ninguém é feito só de defeitos. Talvez essa idéia venha de um “ideal de eu” muito rígido ou de uma acentuada depressão.

Talvez a distancia entre o “louco” e o “normal” seja muito pequena. E só pode ser avaliada de acordo com o nível de comprometimento que traz à vida de cada um de nós. Nossa loucura também é a expressão de nossa subjetividade. Por mais prejudicial que um sintoma possa ser ele sempre é uma tentativa de equilíbrio vinda de nosso psiquismo.

Vou dar como exemplo a depressão. É um sintoma bastante comum nos consultórios de psicologia dos dias de hoje. Normalmente a depressão está funcionando como uma compensação de alguma inflação interior. Pode ser uma inflação de ego, aonde a pessoa fica tão envolvida em seu narcisismo que seu mundo e suas relações interpessoais vão se perdendo…

Diferenciar o “louco” do “normal” resume-se em avaliar se a pessoa consegue se adptar a esse mundo – apesar de suas loucuras. Se consegue manter seus relacionamentos, suas amizades, seu emprego, etc.

Às vezes paro e penso… até que ponto é normal adaptar-nos a um mundo tão louco assim????????

“Longe de ser a loucura o fato contingente das fragilidades de um organismo, ela é a virtualidade permanente de uma falha aberta na sua essência. Longe de ser para liberdade ‘um insulto’, ela é sua mais fiel companheira, ele segue seu movimento como uma sombra. E o ser do homem não pode ser compreendido sem sua loucura, assim como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade.” J. Lacan

 

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Comentários

  1. Jocélia, acho que a essência dessa citação é a seguinte: o homem não pode ser visto (ou até mesmo idealizado) longe de sua loucura. É através dela que expandimos nossos horizontes.

    Um abraço!

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