A tal da culpa…

Jun 15, 2010 by

Eu gosto da culpa. Ela é um elemento fundamental para nossa vida em sociedade. A culpa serve para trazer a responsabilidade de nossas vidas para nossas mãos.

Ninguém gosta muito de senti-la, e por isso pensamos que o mundo seria bem melhor sem ela. Engano terrível! Como a maior parte dos sentimentos negativos, a culpa tem sua função e seu valor. E quando bem usada torna-se uma grande aliada.

Nos sentimos culpados por aquilo que fizemos de errado – e isso dificulta que no futuro o mesmo erro seja cometido – e também nos culpamos por aquilo que não fizemos ou que poderíamos ter feito melhor – “me cuidei pouco, trabalhei pouco, poderia ter me dedicado mais à família” e por aí vai. Essa culpa quase inata – de que poderíamos ter feito mais e melhor é muito comum à quase todos os seres humanos. Eu digo quase todos porque existem algumas patologias mentais em que o indivíduo não conhece esse sentimento tão comum que nos atormenta diariamente. Os psicopatas não a sentem por exemplo…

Ok, agora que já falei bem da culpa, quero chamar a atenção para os casos aonde ela não é bem empregada. Sabemos que é muito bom chamar para si a responsabilidade de coisas que poderiam ter sido atribuídas ao acaso – isso nos dá condições de mudar o próprio destino. Mas também existem pessoas que passaram do ponto da culpa saudável: aquelas que sentem-se responsáveis por coisas que fogem completamente ao seu controle. “O eterno culpado”.

O eterno culpado passa quase uma impressão de ser um coitado, muito responsável e humilde. Mas o que pode se esconder atrás de alguém que se sente (negativamente) responsável por coisas maiores do que seu alcance? O que me vem a cabeça é uma inflação, um senso deturpado de grandeza, quase como se fosse alguém muito poderoso com uma grande dificuldade de saber qual é seu tamanho e sua influência no mundo. Da mesma forma que é patológico sentir pouca ou nenhuma culpa também o é senti-la em excesso.

Quando olhamos para o psicopata vemos em sua consciência alguém que se acha no direito de receber do mundo aquilo que lhe é devido. Quando olhamos para o culpado eterno vemos alguém que se acha no dever de salvar o mundo simplesmente por se sentir um ser superior em algum canto de seu psiquismo.

Saber nosso próprio valor (e nosso próprio tamanho) não é tarefa fácil. Quando temos isso a culpa vem para nos ajudar a desenvolver as potencialidades que temos dentro de nós e que estão ao nosso alcance: amar mais, ajudar mais, cuidar mais, errar  menos, julgar menos, e por aí vai…

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Comentários

  1. Gostei muito de estar aqui e ler seus posts criativos com informações interessantes. Também sou psicóloga e acabei de construir uma página na web.
    Concordo com você quando diz que a culpa é necessária. É ela que nos torna inquietos em relação aos nossos próprios valores.Porém, sem dúvida alguma, como voce coloca, é necessário reflexão e análise para que as pessoas não se punam o tempo todo e boicotem seus anseios .
    Visite meu blog em http://rose-psicoblogando.blogspot.com/

    um abraço

    Rose

  2. Há mto tempo queria fazer um blog sobre compulsão e os conflitos vividos por mim devido a esse meu “problema”. Acabei de fazer o meu blog e procurando blog sobre o assunto afins, achei o seu. Bom saber que temos pessoas que podemos falar sem medo, sem máscaras sobre o que sentimos e o melhor de tudo nos ajudando! Bjos

  3. Ana Padilha

    Acho que culpa implica que a pessoa poderia nao ter cometido a ação. Por exemplo: Eu poderia (e deveria) não ter perdido o controle com o vendedor! Mas eu perdi e por isso sinto culpa. Acho que nesse caso não ha possibilidade de a pessoa ter feito algo que ela efetivamente não podia fazer. Como ser calma e positiva ao tratar com o vendedor se ela nao teve uma formação familiar e social para isso ou se ainda não alcançou um grau de autoconhecimento que possibilitasse o tratamento adequado ao vendedor (reclamar sem partir pra cima). A única forma da pessoa saber como agir em uma situação de conflito e passar por conflitos usando as suas ferramentas habituais até perceber que elas nao funcionam e decidir trocar de ferramentas. Quando eu tratei mal o vendedor, ele chorou descontroladamente, certamente estava vivendo uma realidade que eu desconhecia. Me senti mal, senti remorsos, gostaria de nao ter feito isso, mas fiz, pois nao consegui me controlar e se eu engolisse mais um sapo hoje eu iria morrer! Não quero mais ser agressiva com vendedores, nao quero mais passar pelo que passei hoje. Não quero mais sentir esse remorso. Por que será que eu fiquei tão irada? Porque será que eu disse a ele justamente isso ou aquilo? O que aquele vendedor representa para mim? Eu realmente odeio aquele vendedor? Ah! então é isso ! Da proxima vez (agora que ja sei que essa atitude nao me ajuda)vou tentar me lembrar desse episodio, respirar fundo e falar com calma, quem sabe assim eu posso até estar ajudando o vendedor a se aperfeiçoar no trabalho dele e ele pode até se tornar meu amigo, me dar um tratamento especial da loja, se não pelo menos eu fiz a minha parte.
    Eu acredito em remorso, não em culpa. Culpa é poder (eu tinha o poder de ser calmo e fui agressivo) mas nao temos o poder de ser aquilo que ainda não somos capazes de ser. Aceitando as consequencias das nossas ações inconscientes (brigas, separações, prisão, doenças e infelicidade de modo geral)despertamos para a necessidade de auto conhecimento. Quando tivermos o poder de agir em nosso benefício, agiremos e então não havera mais razão para remorsos. O que faz um psicopata matar não é a falta de culpa, mas sim o desejo de obter prazer mesmo que esse prazer para ele seja provocar dor. O que faz um não psicopata não matar não é o fato dele saber que sentirá culpa, mas sim que ele nao sente nenhum prazer e sim nojo da ideia de machucar outra pessoa. O psicopata acha que é certo matar e ninguem sente culpa do que acha que é certo. Eu nao sinto culpa por ter feito almoço para meus filhos, nem por ter dado um prato de comida a uma pessoa faminta. Falta de culpa nao é psicopatia é sabedoria pura e simples. Culpa demais, concordo plenamente com a autora desse blog, é complexo de Deus, é inutil em ultima análise, mas ajuda algumas pessoas a não enlouquecerem (eu acho eu me incluo nesse grupo, indo sempre mais para o grupo dos sem culpa)
    Culpa de vez em quando é melhor que muita culpa, mas ainda não é realista. Você não tem culpa, você tem responsabilidade pelos seus atos (significa dar satisfações dos seus atos a outras pessoas que eles afetam). Você nao tem culpa (sentimento) você tem remorsos, dor pelo que fez. Aquele sentimento: Eu nao devia ter feito isso! pode ser substituido por: Eu nao quero mais fazer isso. Mas eu precisei fazer para aprender, vou aceitar as consequencias e procurar ajuda para mudar, evoluir, aprender a amar…

  4. Ola Ana,

    Gostei do seu ponto de vista. Mas acho que culpa e remorso são um pouco diferentes. A culpa me parece algo mais pesado do que o remorso, e com frequência sem objeto. E ambos podem ser construtivos se soubermos lidar com eles. A culpa tem um caráter inclusive impessoal – daquilo que deveríamos ter feito segundo regem as leis dos relacionamentos por exemplo.
    O sentimento de culpa sem objeto é muito comum. Ouço frases como “Sinto uma culpa enorme como se tivesse feito algo que nem sei o que é.”
    O remorso tem sempre um objeto, e me parece algo mais pautado na realidade do que a culpa.

    um abraco!

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