O arquétipo do Trickster – o pregador de peças

Aug 15, 2010 by

Olá a todos. Hoje escreverei sobre um dos meus assuntos favoritos: os arquétipos. Como alguns dos leitores podem não estar familiarizados com o termo, darei uma pequena definição introdutória para logo em seguida falar sobre o arquétipo do Trickster.

Arquétipos seriam como imagens que residem dentro da estrutura do inconsciente coletivo, seriam como modelos de comportamento humano herdados psicologicamente. Temos vários deles: o herói, a mãe, o pai, o curador, o salvador, o deus,o diabo, etc. e esses modelos configuram a forma que nos relacionaremos com o mundo.

Um desses arquétipos é denominado por Jung de Trickster, e o vejo muito bem representado na figura do Coringa – Joker – nesse último filme do Batman. O coringa é um transgressor, um destruidor, um agente provocador do caos e da incerteza e a medida que faz isso oferece uma possibilidade nova àquilo que já esta rígido e cristalizado.

É muito importante notarmos que para o desenvolvimento de nosso ser precisamos as vezes sair do campo das garantias e certezas. Quantos casamentos não são mantidos com muito sofrimento apenas por medo do desconhecido? Quantos adultos não ficam travados por não ter garantias em suas escolhas? O trickster quebra com a ordem, e isso de forma alguma pode ser julgado como algo somente negativo, pois é a possibilidade de vida nova.

Sugiro que assistam no you tube uma parte do filme em que o Coringa dialoga com outro personagem, e ali está a melhor definição do arquétipo do Trickster que encontrei no filme: http://www.youtube.com/watch?v=B0JFjEyaHNU

No filme o Coringa diz que é na hora da morte que conhecemos verdadeiramente o caráter das pessoas. E o Trickster em nosso psiquismo de certa forma nos empurra a essa morte (simbólica da persona) para que saibamos do que somos feitos. Ele sabe o calcanhar de Aquiles de cada um. Pega em nossas feridas e nos tira o controle da vida. Ele aparece nos sonhos sob a forma de um palhaço, um louco, bobo da corte, por aí.

Como vilão ele fortalece o herói. O coringa é muito parecido com o Batman, e um alimenta a existência do outro.  Podemos dizer que na arte eles são aspectos opostos de uma mesma coisa. Ambos agem fora da lei, são incorruptíveis, possuem uma história triste e lutam por seus ideais mais caros. O Batman luta pelo bem e por justiça, enquanto o Coringa luta para mostrar que não há justiça e que as pessoas todas têm seu preço. Esses ideais são completamente antagônicos e a existência de um fortalece a existência do outro, traz crescimento.

Em um determinado trecho – quando o Batman finalmente captura o Coringa – esse diz que eles vão continuar eternamente nessa dinâmica, pois o Batman não o mata devido aos seus princípios e o Coringa também não o matará porque ele é muito divertido.

Apesar disso ser uma ficção quero dizer que essa dinâmica de forças acontece permanentemente em nosso psiquismo. Essas histórias ilustram perfeitamente os mais terríveis conflitos em nossa alma. E é bom deixar o trickster entrar um pouquinho em sua vida, senão ele vai acabar forçando essa entrada e quem não entende por amor acaba aprendendo pela dor.

Assuntos relacionados ao desse post você pode encontrar nesses outros tópicos:

Os arquétipos da jornada do herói na infância – O Órfão e o Inocente

Os arquétipos da jornada do herói na velhice: O Sábio e o Bobo

A jornada do herói no processo da psicoterapia

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Comentários

  1. Sempre estou lendo seus artigos Drª Ana. Vejo este site, como uma porta aberta para o conhecimento psiquico.
    Aprendo muito com ele e com sua experiência.

  2. Edimea

    É a primeira vez que vejo algo do Jung realmente esclarecedor. Parabéns!

  3. Casemiro

    É um assunto cativante e ainda bem desenvolvido fica melhor, mas algumas dúvidas continuam comigo. Arquétipo e símbolo, pois vejo um é a linguagem do consciente pessoal e outro do coletivo, é isso? Mesmo assim fico em dúvida do arquétipo.

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