Que rei sou eu? O mundo do adulto pueril

Aug 17, 2010 by

Estava vendo meus e-mail essa manhã quando recebi um muito bacana de um leitor do blog. Ele estava lendo um artigo sobre relacionamentos amorosos onde uma psicóloga comentava como as pessoas estão intolerantes à frustração nos dias de hoje, e me fez algumas questões sobre o assunto.

A capacidade de tolerar frustrações está diretamente ligada ao grau de amadurecimento do indivíduo. Observe como uma criança se comporta quando o ambiente frustra seu desejo. Ela chora, faz birra e até mesmo odeia quem antes era seu objeto de amor… quase como se o mundo estivesse ali para servi-la. Esta é uma posição muito egocêntrica (o mundo gira em torno do indivíduo) e tipicamente infantil. Mas enquanto esse comportamento for de uma criança não tem nada de errado… o problema é que essas crianças envelhecem mas não deixam o padrão pueril para trás. Esse padrão é o arquétipo do Puer e você pode ler mais sobre ele no post A maior lição de Antoine de Saint-Exupery.

O adulto infantil (puer aeternus) é aquele que não abandonou o paraíso de ser criança. De ser cuidado por terceiros, de não ter responsabilidades e nem compromissos sérios. Esse adulto se pergunta “Por que isso acontece comigo?”. Isso ilustra claramente o quanto sente-se especial em relação ao “resto” do mundo, igual a uma criança. Bem, que tal mudar a pergunta para “Por que não comigo?”

Socialmente vemos essa postura descompromissada, egocêntrica e imatura se transformando numa epidemia. Nossos valores são muito mais individualistas do que coletivos. Queremos que alimentem nossos desejos instantaneamente e eu digo que pouco ou nenhum crescimento pode vir dessa dinâmica. Lutar, começar por baixo, sofrer, se sacrificar são inerentes à vida adulta. Se pegarmos os rituais de iniciação à vida adulta que os povos primitivos fazem todos incluem o sacrifício e o sofrimento e um menino só se transforma em adulto quando consegue suportar o ritual.

Aqui não temos rituais mais… e ficamos e ficamos e ficamos reclamando quando o mundo não nos dá o que queremos, sem no entanto corrermos atrás daquilo que precisamos.

O mundo não é seu pai, as pessoas à sua volta não são sua mãe. E você já não é mais criança. E aí?

E aí tem que deixar de ser filho! Psicologicamente dizemos que o ego deve deixar de se identificar com o todo-poderoso self e perceber que é menos divino e mais humano do que pensava ser…

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Comentários

  1. “A capacidade de tolerar frustrações está diretamente ligada ao grau de amadurecimento do indivíduo.” – Realmente, acredito que dentro desta conduta há certas infantilidades, que resulta neste comportamento. Acredito também que, os pais são importantes para este amadurecimento. Por exemplo, mães que ainda tratam seus filhos adultos como crianças, privando-lhes de algumas responsabilidades, achando que através disto os continuará protegendo. Na verdade apenas ‘tapam o sol com a peneira’ pois o mundo lá fora não é pai nem mãe de ninguém.
    Fica aqui um alerta para pais que ainda não souberam preparar seus filhos para a vida adulta, mostrando-lhes o que é a vida nos seus degraus correspondentes. E fica a reflexão para aqueles que achavam que os mimos são bons, mas quando em demasia, na verdade estão os impedindo que crescer psicologicamente.

  2. Exatamente… alguns pais hoje em dia seduzem muito seus filhos para que permaneçam infantilizados, e daí tem-se a grande importância de que os pais tenham vida própria e interesses além dos filhos.
    Outro ponto importante é que casamentos que não estão bem provocam uma ligação desastrosa entre pais e filhos, onde um dos parceiros “utiliza” um ou mais filhos como companheiro. Quem se interessar pode ler o post sobre complexo de jocasta.

  3. Rafael

    excelente post!

  4. Milton Cruz

    Olá Ana. Estou necessitando de textos para fazer uma boa reflexão sobre a produção da subjetividade egoísta e a infantilização dos adultos na sociedade moderna. Em minha perspectiva de pesquisa as instituições utilizam-se de rituais como as apresentações e “formaturas” desde a escola infantil, os bailes de debutantes, os concursos de beleza para as mulheres, os trotes acadêmicos, etc. Tens sugestões? Obrigado.

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